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Conversa com Eduardo Montelli

Quando você começou seu trabalho artístico?

Considero que iniciei meu processo artístico em 2007, aos 18 anos, quando entrei no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Penso que foi uma tomada de posição corajosa escolher cursar Bacharelado em Artes Visuais em meio a toda cobrança por definição de um futuro profissional estável financeiramente inerente a esse momento da vida de certa parte da sociedade. Tinha essa coisa da “passagem pra vida adulta”, entende? Essa situação toda despertou em mim um desejo intuitivo de trabalhar a partir da própria noção de “formação”. O que é se formar? Como alguém se forma como artista? Onde a formação individual, ou seja, as experiências mais pessoais e íntimas, encostam na formação como artista, no trabalho prático que configura o “processo artístico” ou “a linguagem do artista”? A partir desse ano fiz alguns experimentos com edições de registros cotidianos, documentações e arquivos que de alguma forma comprovavam e produziam minha “existência” como pessoa, como “estudante de arte” ou tantas outras identidades que habito (desde certidões oficiais até bilhetes de amigos).

Por exemplo, os trabalhos aqui presentes. Looks Like Me tem uma ideia de edição e apresentação de um arquivo de looks que revelam todo um modo de vida, uma realidade social. No vídeo Minha mãe e suas ferramentas, minha mãe apresenta seu acervo de ferramentas e o vídeo se torna algo como uma listagem. Tem sempre a ideia de arquivo, registro, apresentação e construção da minha realidade, mas sempre de maneira experimental.

 

E a sua produção atual?

Eu acredito que há uma continuidade no meu trabalho. O que posso notar é que ele necessita de uma certa temporalidade, um arquivo precisa de tempo para se formar. Os looks foram vários meses, por exemplo. A própria relação com a minha mãe ela aparece no meu trabalho desde 2007, são experimentos que se desdobram. Então a minha produção atual não se descola da minha produção anterior.

Se você for pensar, esses trabalhos que estão aqui não são atuais, eles são de 2010 e 2014. Não separo meus trabalhos mais antigos dos mais atuais, eles estão sempre coexistindo em meu pensamento, e me interesso pelas oportunidades de colocá-los em relação, como nessa exposição. Mas também tenho experimentado muita coisa na internet, mais do que em galerias e museus. De qualquer forma, eu diria que minha produção mais atual são experimentações em GIF (www.gifs-do-eduardo.tumblr.com), que penso como um desdobramento do meu processo com vídeo, fotografia e arquivamento.

 

Quantos looks você montou para o trabalho?

São 50 looks. Na verdade era um trabalho para internet (www.lookslikeeduardomontelli.blogspot.com), a ideia de expor como fotografia é mais recente. Na exposição aparecem apenas 48 imagens por questões de montagem, porque 50 não fechava o grid. As fotos eram feitas com a roupa que eu estava, pedia para a minha mãe tirar as fotos e isso era parte do trabalho. Era sempre “chegando em casa”, “em casa” ou “saindo de casa”. A ideia original para a exposição era colocar legendas nas fotos, semelhante como é no blog, mas o curadores acharam que não era necessário.

A ideia do blog em 2010 surgiu a partir de algumas observações e inquietações sobre a vida comum, por exemplo a crescente construção de si através de imagens na internet e a criação de padrões e normas de comportamento por trás disso. Uma vez ouvi alguém falar que uma pessoa que conhecíamos não era “gay”, pois “não sabia se vestir”. Eu fiquei super abalado com isso, me sentindo na obrigação de ser “bem vestido” para ser aceito como “gay”. Enfim, eram muitas questões misturadas. Eu resolvi encarar isso tudo mostrando minha realidade de maneira crua e afirmando positivamente o que eu sou. Ao invés de buscar pertencer ao mundo dos “looks”, resolvi inventar o meu próprio blog.

Os looks são sempre as roupas que eu vivia no meu dia-a-dia; eu ia votar para presidência vestido assim, ia para as aulas, para o psiquiatra, para festas, enfim, era meu “estilo” na época. E na verdade a graça é que não tem “estilo” nenhum, nada “fashion” ou “glamouroso” como são os “looks cotidianos” que circulam nas redes sociais. É completamente banal, mas isso em si é um estilo também. Eu queria mostrar que até nisso, no mais banal, existe uma construção particular. É roupa, é identidade. Os looks não eram pensados, não era como “vou pôr uma roupa para tirar uma foto”, mas não dá para separar uma coisa da outra: o meu vestir já estava influenciado por aquele processo.

 

E o vídeo “Minha mãe e suas ferramentas”?

Esse vídeo vem de um desejo de fazer algum trabalho com a minha mãe. Em 2007 comecei um processo de construção de narrativas sobre a minha relação com ela. O meu trabalho é muito ritualístico, a partir do meu processo artístico eu lido com questões que me inquietam como pessoa e como artista isso se desdobra em “obras”, “proposições”, etc.

 

Quando comecei a trabalhar eu tinha 18 anos, ainda havia questões da adolescência em mim. Uma delas era a relação com a minha mãe, com a identidade e visualidade dela. Ela é lésbica e se comporta de maneira considerada “masculina”, usa roupas “de homem”, mas não se considera trans.

Quando eu era criança e adolescente tinha problemas com isso, eu tinha vergonha e não sabia lidar com a reação das pessoas à imagem de minha mãe.

Então na idade adulta, e enquanto artista, comecei a encarar os meus problemas a partir do meu processo. A primeira coisa que fiz foi um texto em que falo sobre o momento em que ela conta para mim e para minha irmã que ela é lésbica.

Depois em 2008 fiz uma série de fotos com ela, que tinha uma ideia de nudez, crueza e androginia. Houve esse desafio de mostrá-la nua. E quando fui fotografá-la ela se escondia de algum modo, com certa vergonha. Os retratos acabaram revelando um jogo de “mostrar e esconder”. Em 2010 eu apresentei essas fotografias numa exposição, então tentei materializar essas questões na própria montagem. As fotos eram fixadas em acrílicos pretos e presas com pregos na parede, eu queria misturar materiais mais bem acabados e dentro dos padrões de exposição com materiais mais crus, coisas que ficam escondidas por trás do acabamento (pregos, tijolos, etc). Além disso também usei um acrílico fumê por cima das fotografias, o que produziu um efeito de veladura, algo que se mostra mas que tem certa opacidade. Isso tudo reverberava nessa questão da ambigüidade da aparência dela e das inquietações com o “ser visto”. E isso discute essa figura que ela representa: mulher, mãe, masculina. Isso mostra essa realidade e as características políticas e identitárias que ela traz como pessoa.

No vídeo penso em tudo isso, mas também nas relações com os objetos. Junta a relação do indivíduo com as ferramentas, com essas extensões de nosso corpo que compõem a nossa identidade. Nesse vídeo ela está com uma roupa masculina, que é como ela se veste sempre, em relação com as ferramentas. Penso no quanto os objetos que tu usa te identificam. Então ela usa pregos, peneiras, motosserra, liquidificador, indo além dos estereótipos do homem e da mulher, de quais ferramentas são feitas para o uso de uma mulher, de uma mãe. Acredito que com esse vídeo resolvi diversas questões sobre estereótipos de gênero e de comportamento, sobre a imagem que esses estereótipos produzem e principalmente sobre a complexidade disso tudo. São muitas camadas, não há uma “legenda” possível para identificar tudo.

 

E ela gosta de participar dos trabalhos?

Como começou muito cedo, ela vem participando. Ela que fotografava meus looks, montava as minhas exposições. E no vídeo era para ser ela segurando os objetos parada, só mudando os objetos. Eu deixei todas as ferramentas paradas em um canto, mas ela começou a interagir com esses objetos, então eu não a dirigi, ela não foi somente a modelo, mas performer. Ela realmente encara, inventa junto, e isso é o mais legal, tudo é espontâneo. Tanto é que tive problemas com esse vídeo, ficou muito escuro, esqueci de ligar a luz quando gravei. Mas eu gostei tanto do resultado, que se fosse repetir perderia a espontaneidade, então acabei deixando. Apesar de ser encenação, por que há uma câmera, há uma diferença do improviso e do roteiro. Se fizéssemos novamente algo se perderia.