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Conversa com Bia Martins

Você poderia falar um pouco sobre a sua produção atual e como você começou a produzir?

Comecei estudando no curso de Escultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ao mesmo tempo estudando com bolsa integral na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Desde 2010, quando vim para o Rio de Janeiro para fazer faculdade, comecei a me dedicar e desenvolver meus trabalhos autorais. Os argumentos com os quais venho construindo essa pesquisa artística tem formado um campo flexível, penso que meus trabalhos envolvem estratégias variadas que se propõem a refletir sobre questões que perpassam a vida cotidiana. A desmaterialização do objeto artístico e o foco nos micro sistemas e processos que se tornam a própria matéria dos trabalhos são os caminhos que mais me interessam e me estimulam a trabalhar.

 

Poderia falar sobre o seu projeto para o EDP?

Com as visitas semanais dos jurados no ateliê o trabalho foi girando em volta de si mesmo, após as conversas mexi em pontos problemáticos do projeto e surgiu essa nova proposta. O que eu estava pesquisando no momento tinha uma relação próxima com as propostas que eu havia enviado ao edital, mas com algumas leves diferenças, então com delicadeza o Marcius Galan e a Julia Lima me deram um toque. É muito mais interessante entrar de cabeça nas questões que estão ardendo. O sal está me ardendo. Pesquiso esse elemento faz algum tempo e agora no mestrado é ele o alicerce do meu projeto de pesquisa. A Região dos Lagos, no litoral do norte fluminense é o meu ponto de interesse principal, além de ter nascido e crescido ali, sigo frequentando e cada vez mais estudando esse parque salineiro, que desde o século XIX é uma das mais valiosas fontes de extração de sal do país.

No momento das visitas eu estava desembaralhando e tentando organizar os milhares de materiais e informações do meu leque de interesse e possibilidade. Esses vários embriões se espicharam e se multiplicarão com rapidez, lembro que logo após uma conversa com o Rodrigo Martins e com a Julia Demeter em um self-service do Rio Comprido, pedi emprestado o carro do meu avô e fui pra Via Lagos, minha principal veia de circulação, estrada que liga meu coração ao meu pulmão e que me leva do Rio à Cabo Frio em poucas horas. Lá procurei os ceramistas da beira da estrada e os vasos que eles fazem e empilham brilhantemente no acostamento, durante muito tempo eu passava ali apenas de ônibus e ficava babando naqueles vasos, nas panelas, nas moringas, nos bichinhos e em todas as outras coisas que eles inventam e queimam naqueles fornos improvisados e cheios de gambiarras, que dava pra ver da janela do ônibus.

Finalmente depois dos desenhos e experiências dentro e fora do ateliê, carregando vasos de cerâmica e sacos de sal no porta-malas do meu avô, cheguei a algumas combinações semifinais. Cismei com plantação e por conta da horta coletiva que tem no primeiro andar do ateliê plantei duas mudas de babosa que havia ganho da minha avó, usei um vaso novo e um vaso mais velho, que esteve cheio de sal grosso por três ou quatro meses. A muda plantada no vaso novo vingou e a plantada no vaso que recebeu o sal morreu. A morte de uma das babosas foi fundamental para perceber algumas esferas do meu pensamento e cuidar da minha perspectiva comigo mesma, entender as propriedades desse elemento que vem perpassando vários dos meus trabalhos fortalece a vontade de ampliar e articular o meu campo poético.

Boa fortuna de crescer a tempo é uma obra carregada de ironia, a catapulta que está pronta para arremessar a moeda de 1 centavo é uma arma, a munição é a moeda de menor valor existente, que quando alcança o alvo – o conjunto de vasos – apenas intumesce seu fim. O sal grosso que enche os vasos, esteriliza a terra, suga a água e tira a vida, o dinheiro não resiste. Pensando em vida e resistência, essa instalação é próspera. Pensando em escultura, transitória e permanente, seu processo de produção convida uma por uma de suas instâncias e origens à falar por si só.

 

Poderia comentar um pouco sobre as suas referências?

Os cabofrienses. Os cabistas. Os buzianos. Os aldeenses. Os fluminenses em geral mexem comigo. Tem um fotógrafo da região, já falecido, que gosto muito, é o Wolney Teixeira. Wolney andou por aqueles cantos todos, fotografou uma greve dos trabalhadores das salinas por volta de 1951, quando pediam melhores condições de trabalho por conta da insalubridade que eram forçados a trabalhar, fotografou os trabalhadores nas salinas e na vida simples de um lugar incrível e estonteante. Muito amigo do meu avô inclusive, ele fez imagens dos carnavais de Cabo Frio, das barcaças no canal do Itajuru, dos pescadores e das praias maravilhosas, quase intocadas pela especulação imobiliária.

Tunga é uma referência, trabalhei um tempo no ateliê do Joá com ele, incrível, grande escola. Maria Martins, diva, mulher escultora, olho muito pros trabalhos dela. A pouco tempo aprendi muito com o Senise e com Nelson Felix. Tem muita gente nesse mundo que tomo como referência, meus avós e meus pais são bons exemplos.