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do cubismo ao retorno à ordem

Em meio às pesquisas sobre a vastíssima produção de Pablo Picasso, uma referência à música erudita chamou nossa atenção. A crítica de arte Rosalind Krauss, em seu livro “Os papéis de Picasso”, trata da fase cubista do artista espanhol, caracterizando-a como uma das mais radicais descobertas entre as vanguardas modernas. No entanto, após o final da I Guerra Mundial, Picasso se volta a temas clássicos, à figuração, num período designado “retour à l’ordre” (ou retorno à ordem). Seus críticos, naquele momento, o acusam de fraudulento, o termo pastiche é empregado extensamente por seus detratores, e toda a ousadia do período cubista pareceu abortada. Krauss cita, então, um paralelo a esta sucessão aparentemente incompatível com o espírito inovador do cubismo. A melhor forma de explicar esta contradição, afirma Krauss, é entender o confronto entre a produção musical de Arnold Schoenberg e Igor Stravinsky, analisado por Theodor Adorno. O compositor austríaco operou uma revolução na música, criando a escala dodecafônica. Em termos simplificados, ao invés de considerar que a escala musical possui 7 notas padrão e 5 notas intermediárias de semitom (bemol ou sustenido, na linguagem musical), Schoenberg designou valores iguais a todos os meios tons, criando uma escala de 12 notas, sem hierarquia. Dessa forma, o compositor desenvolveu um método de composição atonal, que de certa maneira parece reproduzir a lógica visual fragmentada do cubismo – os arranjos parecem não ter melodia, não há temas repetidos, é difícil identificar a escala. Desviando-se deste modelo moderno, Igor Stravinsy compôs, entre a década de 1920 e 1950, uma série peças clássicas, entre elas Pulcinella, Apollon e Orpheus. O retorno à ordem do compositor russo afetou não apenas o estilo musical, mas também a temática das peças que criou, entre balés, óperas e sinfonias, debruçando-se sobre a mitologia grega. Avizinhar a música insólita de Schoenberg e as peças mais tradicionais e antiquadas de Stravinsky nos dá a precisamente a dimensão da estranheza e incompatibilidade que Krauss aponta no encadeamento das fases de Picasso, experiência que agora pode ser compartilhada ao acessar a playlist criada pelo Núcleo de Pesquisa e Curadoria no Spotify para ilustrar a passagem do cubismo ao retorno à ordem.

 

Julia Lima
Maio, 2016