Av.Brigadeiro Faria Lima, 201, Pinheiros - São Paulo - SP
SOBRE DANÇAR COM O CORPO DA ARQUITETURA

Se a arquitetura acolhe e afirma certo lugar para os corpos no espaço, a dança pensa e explora o espaço por meio do corpo. Porém, a dança pode determinar a mobilização do corpo nos lugares assim como a arquitetura se falarmos em ritmo, sincronia e harmonia na coreografia de indivíduos e coletivos. Tais preceitos descritos para a coreografia podem basear, do mesmo modo, os projetos e a organização de edificações arquitetônicas, ainda que exista a vertente contemporânea que propõe a acolhida de certa indeterminação, por meio da compreensão de que o espaço não é somente definido por uma ideia de uso prévia, mas pelo modo que é espontaneamente vivenciado pelos corpos. Isso significa despir-se da noção de beleza higienista, aceitando os múltiplos usos e as contradições sociais presentes nos espaços, de forma a romper com a ideia de ordem vivida na cidade, por vezes conferida pela arquitetura.

Os questionamentos do sentido da arquitetura no mundo contemporâneo parecem impregnar também a dança, a partir do legado dos coreógrafos e dançarinos Merce Cunningham, Pina Bausch e Yvonne Rainer, entre outros. Todos aproximam-se de uma dança que olha para os corpos como fonte de movimento e não como mero instrumento da produção artística. O corpo nessa concepção não necessita ser dominado, submetido e aperfeiçoado segundo certos padrões técnicos. Na dança contemporânea se estimula a liberação da expressão do movimento natural e individual dos corpos, e a busca por maior consciência e contato com suas possibilidades. Nesse sentido, o movimento cotidiano e banal também se torna fonte de inspiração, em que coreógrafos incorporam elementos como o murmúrio, os grunhidos, gritos e gemidos como partes indissociáveis do corpo e de sua dança. Assim, a dança contemporânea assume, do mesmo modo que a arquitetura contemporânea, a indeterminação como possibilidade de criação. No lugar da coreografia prevalece a liberdade de invenção no ato de dançar.

Talvez seja justamente nas concepções contemporâneas de indeterminação dos espaços e das coreografias que a arquitetura e a dança estejam mais imbricadas, pois ambas estão focadas em refletir quanto aos modos possíveis de se habitar e vivenciar o espaço e o corpo. E é nesse sentido que os trabalhos da mostra parecem apontar, não para a noção de acolhimento ou de coreografia, mas de embate e indagação do lugar dos corpos no mundo. Se a arquitetura pauta certa coreografia para o corpo, nos trabalhos concebidos e selecionados para “É como dançar sobre a arquitetura” vemos o desconforto e a consequente desnaturalização dos corpos no espaço.

Na série de fotografias de João Castilho, realizadas em bairros industriais ou ermos do centro de Belo Horizonte, por vezes sem resquícios de natureza qualquer, indivíduos e grupos se inserem em posições e atividades que seriam corriqueiras em contextos outros, mas que ali criam evidente atrito. Tais espaços, a exemplo dos viadutos, quando permeados por atividades humanas diversas criam narrativas dissonantes, que parecem beirar o absurdo, daquelas previamente estabelecidas. Lugares de passagem são habitados por sujeitos em diálogo, um muro imponente e desafiador às proporções do corpo é escalado. Ficam em evidência gestos e coreografias do cotidiano que passam despercebidos, como integrar a fila de banco: situação que somente mantém o seu “sentido” quando em contexto específico. Aspecto latente ao analisar tais fotografias é o fato de que condicionamos os corpos a certos gestos e códigos de conduta que sequer sabemos se seriam os mais adequados às vontades do corpo. Não seria interessante sentarmos do que ficarmos de pé numa fila? Há como burlar esses códigos individual e/ou coletivamente?

 

Do mesmo modo Lia Chaia questiona a convenção dos espaços, desenhando novas espacialidades possíveis ou impondo a seu próprio corpo desafios para habitá-los plenamente. Em seus trabalhos há a crítica não somente à sujeição e inadequação dos corpos frente ao contexto urbano, mas também ao modo como a arquitetura pensada como “abrigo” também tolhe os movimentos. No caso do vídeo Piscina, dois encerramentos dos corpos ficam aparentes: o primeiro pelo quadro escolhido, ou seja, a vista superior da piscina; o segundo pelas linhas labirínticas desenhadas, que substituem a ortogonalidade das raias. Ambos os quadros trazem a noção de encerramento, de possibilidades definidas, de supressão de certa liberdade do corpo, definida pela arquitetura ou pela artista mesma.

 

 

Já na proposição de Jorge Soledar as convenções questionadas são justamente aquelas atreladas ao próprio espaço de exposição. Se em atividades cotidianas temos determinadas regras de conduta social, como no modo de nos portarmos frente a uma obra de arte, temos aqui a expectativa de criar novas situações e movimentos. O engajamento do público com os manequins é a chave de ativação do trabalho, pois ao inseri-los em seus corpos, pisando e apoiando-se sobre as bases brancas, subverte-se o que foi originalmente concebido para proteção de objetos de importante valor simbólico. São ações simples, porém geradoras de mudanças no modelo postural esperado para o espaço expositivo. Que movimentos, coreografia, o público terá de compor para se encaixar? A proposta de Soledar coloca em xeque a etiqueta e os códigos sociais – que passam a ser moldados por meio dos corpos-simulacro em contato com os corpos reais – assim como busca dessacralizar a assepsia assumida pelo modelo expositivo do “cubo branco”.

 

 

Ainda que as propostas de Castilho, Chaia e Soledar teçam crítica à determinação dos espaços, a exposição não chega a assumir tom pessimista. Pelo contrário, os corpos presentes se negam a aceitar a coreografia corporal determinada pelos ambientes e seus códigos sociais, fabulando outros modos de vivenciá-los. São obras que fazem dançar a arquitetura, mesmo sem a pretensão de modificar a sua estrutura: interferem, criam novos movimentos e ruídos, decompondo os espaços de modo lúdico.



Luise Malmaceda

Núcleo de Pesquisa e Curadoria