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YOKO ONO: TRAJETÓRIA E INFLUÊNCIAS

Por sua trajetória, que atravessa as artes visuais, a música e os movimentos pacifista e feminista, Yoko Ono (Tóquio, 1933) se tornou uma figura conhecida da cultura pop. Destacou-se no meio artístico dos anos 1960, desempenhando papel fundamental no desenvolvimento de novas formas de arte. Ainda na década de 1950, começou a produzir as instruções, obras experimentais nas quais abdica da dimensão material para valorizar a palavra, a ideia e a participação criativa do público por meio de ações físicas ou mentais.

 

Sua obra resiste a classificações e é marcada pelo experimentalismo. Como artista de vanguarda, produziu textos, filmes, performances, happenings, instalações, arte sonora e ações multimídia. Estudou música quando criança como extensão de seu ambiente familiar – seu pai teve formação como pianista – e ao longo dos anos produziu diversos álbuns. Participou do movimento internacional Fluxus, que reuniu artistas interessados em propor uma integração entre “arte e vida”. Foi, e continua sendo, uma voz importante do movimento pacifista, reforçando em seu ativismo político uma mensagem de esperança, de consciência e aproximação com o outro. 

 

Respirar, olhar para o céu, construir uma pintura mentalmente, escrever sobre as mães. Essas são algumas das ações que compõem a exposição O CÉU AINDA É AZUL, VOCÊ SABE... Dedicada à artista japonesa Yoko Ono, a mostra tem como base obras propositivas, em que o público é convidado a participar de diversas maneiras: seja estimulando sua imaginação ou até mesmo interagindo com o espaço e com o outro.

 

A partir de pequenos textos, Yoko Ono deseja conversar diretamente com as pessoas. Ou seja, essa não é uma exposição de objetos de arte tradicionais – pintura, escultura ou desenhos, por exemplo – mas um espaço onde a artista sugere ações bastantes simples, por vezes cotidianas, em que o resultado final não necessariamente leva a algo palpável. Suas propostas estão mais ligadas à capacidade de refletir sobre temas que vão da história da arte à política atual e de, fazendo sentir diferentes emoções. Essa é uma mostra que conversa com cada um de nós de modo muito particular e, por isso, não há certo ou errado em sua execução.

 

Pela primeira vez exibidos em tamanha quantidade no Brasil, esses escritos são chamados de Instruções, e recebem, em sua maioria, o título de “peça”, indicando e se referindo aos campos em que a artista transitava: música, performance e artes visuais. Por ser um formato singelo, a exposição foi inteiramente produzida no Brasil, desde a tradução dos textos para o português até a escolha dos materiais, que dialogam com o contexto local, aspecto sempre levado em consideração por Ono. 



Quando o termo “arte conceitual” é citado é comum estar associado ao contexto dos anos 1960 e 1970. Nesse período, uma vanguarda que não se enquadrava nas práticas da arte minimalista ou nas formas estabelecidas pelo modernismo, desenvolveu-se.  Esta vanguarda emergiu em diversos locais do mundo, formando uma ampla rede que não envolvia apenas artistas, mas literatos e performers, que realizavam uma multiplicidade de atividades com base na linguagem, na fotografia, no vídeo e também executavam projetos em que a ênfase situava-se no processo, nas etapas da produção e não no resultado final ou na materialização de um objeto.

 

Por esse motivo, é possível dizer que Yoko Ono é uma precursora da arte conceitual, pois mesmo antes desta nomenclatura ser difundida (Henry Flynt, em 1961, a usou pela primeira vez) a artista já havia iniciado sua série de Instruções, hoje em exposição no Instituto Tomie Ohtake.

 

Outro nome diretamente associado à “arte conceitual” e de importância para o trabalho de Yoko Ono é o do grupo Fluxus. Criado em Nova York, mas representado em outros continentes por sua proposta inovadora, tem como um de seus nomes principais George Maciunas – amigo de Ono e responsável por uma de suas grandes retrospectivas na década de 1970. O Fluxus valorizava criações conjuntas envolvendo diversas linguagens artísticas, assim como a exploração de novos materiais e tecnologias, e realizavam ações, happenings e outras apresentações, em geral denominadas “eventos".




Yoko Ono desenvolveu uma intensa relação com a música desde cedo, o que fez com que o som tivesse grande protagonismo em sua produção: do experimentalismo artístico à música pop. Filha de pianista clássico iniciou sua formação ainda criança, aprendendo piano, harmonia, composição e canto. Além disso, foi estimulada a ouvir com atenção os sons do dia a dia, transpondo-os em anotações musicais. Segundo ela, essa prática impulsionou sua sensibilidade, antecipando em essência as teorias da música experimental que conheceria mais tarde com John Cage, com quem colaborou amplamente.

 

Já em suas primeiras exposições, no início dos anos 1960, incluía a exploração sonora em suas performances. Nelas, utilizava gravações de música atonal, exercitava o seu extraordinário alcance vocal, e explorava sons cotidianos como o riso, o murmúrio e o grito. As suas Instruções também podem ser vistas como uma alusão à partitura musical, pois permitem a execução por qualquer pessoa, em qualquer lugar, com abertura suficiente para que cada uma seja única.

 

A partir de 1968, com o lançamento do disco “Unfinished Music No.1: Two Virgins”, realizado em parceria com John Lennon, Ono passa a adentrar o mundo da música pop, mas inserindo princípios experimentais da vanguarda. Na sua produção do período, caracterizada por canções de protesto e por peças intensas - que viriam a influenciar a geração punk anos depois – buscou expandir o horizonte musical utilizando as tecnologias existentes de um modo inovador. Fez uso da música eletrônica em álbuns como "Fly" (1971), em que mistura as suas instruções com o rock. Ainda hoje, Ono segue produzindo e lançando discos, o mais recente "Yes, I’m a Witch Too" (2016), em que colaborou com diversos artistas atuais.




As décadas de 1960 e 1970 foram marcadas pelas primeiras manifestações que buscavam uma maior inserção de mulheres no âmbito artístico. O movimento feminista e sua relação com a arte trouxe às exposições, temas e discussões que ecoavam os diferentes movimentos sociais que eclodiram nos Estados Unidos naquele momento, reivindicando liberdades e direitos civis.

 

Enfatizando a mulher e sua representatividade, a arte feminista marcou-se pelo teor de denúncia e pela busca da igualdade entre sexos, encontrando na arte performática algumas de suas principais precursoras. O uso do corpo feminino como uma via de protesto político e, principalmente, como território de repressão ganhou uma dimensão contestadora em diversas produções do período. PEÇA CORTE (Cut Piece), realizada por Yoko Ono em 1964, tornou-se um marco por ter sido interpretada como uma ação feminista, ao colocar o corpo feminino em posição de vulnerabilidade frente a ação da tesoura, que era concedida ao público para cortar fragmentos de sua vestimenta. Em sua ação, Ono explicita a relação entre vítima e agressor, que se intensificou em suas diversas reapresentações.

 

Em 1971, a artista publicou a “Feminização da Sociedade” em que discorre sobre as possibilidades de atuação em uma sociedade responsável por reprimir as liberdades femininas. Ono menciona que a liberdade feminina não depende somente de um questionamento da opressão masculina, mas da revisão de algumas convicções acerca dos papéis sociais e crenças. O texto trazia embrionariamente alguns pontos cruciais acerca da igualdade de gênero, que ainda reverberam na sua produção. Chamadas como EMERGIR, realizada nesta exposição, mobiliza uma rede de depoimentos que publicizam situações abusivas sofridas por mulheres.




Criada entre Japão e Estados Unidos durante  a Segunda Guerra Mundial e a o início da Guerra Fria, Yoko Ono presenciou o desabrochar de movimentos pacifistas nos dois países. Sua terra natal, o Japão, arrasada com o fim da guerra, presenciou, ainda na década de 1940, manifestações pela paz e a ascensão de movimentos feministas. Houve ainda o surgimento de algumas vanguardas artísticas no país oriental, com as quais Yoko Ono travou algum contato. No entanto, foi nos Estados Unidos, com o acirramento da Guerra Fria e com o desenrolar da Guerra do Vietnã, que a artista presenciou intensamente outro movimento pacifista, que veio a ser responsável por resgatar ideias do Hinduísmo e de figuras como Mahatma Gandhi, que pregavam resistência pacífica contra a violência.

 

Foi em sua relação com John Lennon que o pacifismo ganhou repercussão ainda maior em sua obra e ampliou seu escopo, chegando a ser difundida internacionalmente pela atenção midiática do casal. Um exemplo é a performance “Bed-in for peace” na qual os dois, durante a lua de mel em 1969, passaram uma semana deitados na cama da suíte presidencial do Hotel Hilton, em Amsterdam, como forma de protesto contra a Guerra do Vietnã. Esse mesmo protesto dará origem à música “Give peace a chance”, que se tornaria símbolo do movimento antiguerra norte-americano durante os anos 1970. A violência que Yoko Ono presenciou crescendo nesses dois países, direta ou indiretamente, aparece em seu trabalho. Um exemplo é o traumático episódio das bombas de Hiroshima e Nagasaki, cuja referência pode ser claramente percebida em “Pessoas Invisíveis”



por Carolina de Angelis, Luise Malmaceda, Priscyla Gomes e Theo Monteiro
Núcleo de Pesquisa e Curadoria