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Fábula, frisson, melancolia
Nesta sexta edição do Arte Atual, em Fábula, frisson, melancolia., os curadores Paulo Miyada e Carolina De Angelis reuniram Marcelo Cipis, Pedro Wirz e Tiago Tebet como catalisadores de imaginários e sensibilidades do tempo presente. Em registros estéticos variados, eles reverberam porções de fábula, de frisson e de melancolia: a dimensão do mistério - a lenda, o mito - que transborda sobre a natureza apreendida pela humanidade; a excitação coletiva em estágio de espetáculo; e a inércia, desilusão ou pulsão que não alcança seu alvo.

 

“Cada um se afina com determinado campo de fabulações que atravessam paisagens cotidianas - sejam as urbanas, as rurais ou aquelas presentes no imaginário coletivo. Como artífices, extrapolam as formas e os signos dados, criando imagens novas e cativantes. Contrapostos com a realidade atual, porém, não deixam de revelar alguma fissura, um descompasso com um mundo que se especializou em consumir sonhos, ou vendê-los como paródias decaídas de si”, afirmam os curadores.

 

Pedro Wirz, frente a uma época de inversão de valores e sentidos, volta-se a reminiscências atávicas. Retoma sua infância, retoma as raízes, o folclore, as histórias contadas em volta da fogueira... lendas, geografias e psicologias inteiras construídas graças à possibilidade do fantástico. Wirz propõe uma sala na penumbra, que instiga o visitante a adentrar a mata – evocada pelo estalado dos gravetos sobre o solo – e encontrar uma ciranda de figuras diminutas. Na instalação estarão duas esculturas, uma peça pequena em bronze sobre o solo, que representa pessoas girando em roda, como em uma ciranda; e uma enorme cobra de taipa sobre madeira na parede, enrolada. Grandes quantidades de terra fazem labirintos no chão, cera e troncos de árvores secos compões texturas, madeiras ganham as mais variadas formas. A lida com o bronze, constante em seu trabalho, rememora uma técnica tradicional da produção escultórica. 

 

Nascido em São Paulo (1981), Pedro Wirz passou parte de sua infância e adolescência em Pindamonhangaba. Graduou-se pelo Instituto de Artes da FHNW Basel. Hoje vive e trabalha no Porto, em Portugal. Em parte de suas recentes pesquisas, o artista está resgatando o vocabulário e o imaginário que adquiriu em sua criação e vivência na região do Vale do Paraíba. Mito, fantasia e o modo de vida caipira – não em seu aspecto pejorativo, mas pelos seus traços culturais – dialogam em trabalhos enigmáticos que são, essencialmente, saídos da natureza.


 

Tiago Tebet apresenta um conjunto de cerca de 15 pinturas inéditas. O artista também deambula à procura de imaginários outros, aspectos do real que alimentem novos imaginários, mas seu território é a grande cidade. Nela, encontrou uma arquitetura divergente daquela que se ensina nas universidades e da que os empreendedores reproduzem, vorazes por novos negócios. Nem ciência, nem negócio, a arquitetura que lhe interessa é a do saber-fazer passado de geração em geração. O vernáculo: cimento, massa, pintura, textura, cor, ornamento. Tudo se processa e intensifica no ateliê do artista. Telas brancas exibem padrões típicos de técnicas de pinturas de casa. Pedras, massa e uma mistura de areia com cola somam-se a um procedimento de raspagem para revelar gradientes inusitados de cores vibrantes. No conjunto, de pinturas, porém, não predomina a celebração: algo áspero retorna e insiste em aumentar a gravidade de cada uma das pinturas”.

 

Formado em Artes Visuais pela Fundação Armando Álvares Penteado, Tiago Tebet (São Paulo, 1986) vive e trabalha em São Paulo e dedica-se, principalmente, à pintura. Suas obras testam procedimentos distintos dos tradicionais. Camadas que passam por processos de raspagem, inserção de cores inesperadas, textos que se misturam com as formas. Atualmente, Tebet pesquisa novas texturas atento àquelas usadas na construção civil, nas pinturas de casa.

 



Marcelo Cipis exibe o vídeo feito originalmente para a Bienal de São Paulo de 1991, junto a uma grande tela de 2,5 por 6 m, que reproduz o painel de fundo utilizado para a gravação do vídeo. Além disso, um conjunto de cerca de 10 pinturas que enfatizam o ruído e o inacabado, aspectos pouco vistos na produção do artista, mas que estão presentes em obras de diversos períodos, tendo se intensificado recentemente. Trata-se de um ambiente midiático, habitado por promessas de felicidade e bem-estar. Com afeto, o artista imaginou a face de um corporativismo bondoso, em imagens de humor aparentemente despretensioso. O vídeo de 1991, que divulga a empresa “Cipis Transworld, Art, Industry & Commerce”, dá indícios de um mundo em que a tecnologia e o mercado conviveriam de modo harmônico com a arte e a criação. O tempo, porém, deixa transparecer a angústia por trás do riso - o descontentamento que começa, recomeça e provoca curtos-circuitos no traço antes tão claro e preciso. Pinturas e desenhos demonstram indecisão e incerteza processual.

 

Formando em arquitetura pela FAUUSP, Marcelo Cipis (São Paulo, 1959) vive e trabalha em São Paulo. Dedicou-se a ilustrações para periódicos, jornais e livros e ao mercado publicitário. Participou da 21ª Bienal de São Paulo com o trabalho que traz ao Arte Atual: “Cipis Transworld, Art, Industry & Commerce”.

 

O Arte Atual conta com a parceria de galerias e instituições para a produção das obras, desenvolvidas por meio de diálogos entre a equipe curatorial do Instituto Tomie Ohtake e os artistas convidados. Essa edição teve apoio da BFA São Paulo, Luciana Brito Galeria e Fundação Suiça para a Cultura Pro Helvetia. O programa já contabilizou cinco exposições: Estranhamente Familiar (2013); Medos Modernos (2014); Coisas sem nomes (2015); Da banalidade (2016); e É como Dançar sobre Arquitetura (2017).






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