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Tomie Ohtake - Orbis Tertius



A singular delicadeza das curvas de Tomie Ohtake é ponto pacífico entre público e crítica. Sempre feitas sem régua ou compasso, essas curvas tomaram as mais diversas feições na trajetória da artista. Ênfases sinuosas dos gestos em suas primeiras telas abstratas, emaranhados concêntricos em suas pinturas cegas, curvas paralelas e quase círculos nos anos 1960 e 1970, formas grávidas, ondas, órbitas e espirais reinventadas nas décadas seguintes. Como esta seleção de pinturas de diferentes períodos pretende evidenciar, Tomie associou gesto, curva e corpo em uma experimentação contínua.

Para falar dessas formas, relembramos o célebre conto de Jorge Luis Borges “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”,[1] em que o protagonista conhece, a partir da inesperada “conjunção de um espelho e de uma enciclopédia”,[2] o paradoxal planeta de Tlön, em que – entre outras peculiaridades – os habitantes não contam com substantivos como referência a objetos e espaços constantes, mas com linguagens baseadas em verbos ou adjetivos, como comunicadores de acontecimentos sucessivos, temporais, séries heterogêneas de atos independentes. Como descreve Borges, em um hemisfério do planeta “ ‘Surgiu a lua sobre o rio’ se diz ‘hlör u fang axaxaxas mlö’, ou seja, na ordem: ‘para cima (upward) atrás duradouro-fluir luneceu’ ” e, no outro, “não se diz ‘lua’: diz-se ‘aéreo-claro sobre escuro-redondo’ ou ‘alaranjado-tênue-do-céu’ ou qualquer outra aglutinação”.[3]

Assim, sem substantivos, as linguagens desse planeta inventado – expressas pela edição Orbis Tertius contida na fictícia Primeira Enciclopédia de Tlön – motivam descrições que evitam nomear os elementos da obra pictórica. Talvez possamos falar das pinturas de Tomie Ohtake e suas curvas como uma obra em acontecimento, com a percepção descritiva atuando como dínamo do movimento das formas, cores e gestos guardados pela artista em suas pinturas. Em todo caso, esse é apenas um exercício de observação que poderá ser ignorado, replicado ou contraposto pelas percepções de cada espectador diante das pinturas de Tomie Ohtake aqui reunidas.

Paulo Miyada

Carolina de Angelis


[1] Bioy Casares, Adolfo; Borges, Jorge Luis; Ocampo, Silvina. Antologia da Literatura Fantástica. Trad. Josely V. Baptista. São Paulo: Cosac Naify, 2013. p.113-129.

[2] p.113.

[3] p.118.

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