Passados menos de trinta dias do convite para a exposição e quinze do envio pela equipe de produção da planta do espaço expositivo reservada para ela, o artista convidou-me para visitar seu atelier. Apoiadas contra as paredes da sala vazia e limpa, estavam três grandes pinturas recém finalizadas da série de seis programadas para a mostra. Três dípticos. Todos eles preto e branco. Duas faixas brancas, largas e verticais ao centro, duas faixas escuras, igualmente largas e verticais, uma de cada lado. À minha surpresa – pela rapidez de sua resposta ao convite – e ao meu ar dividido entre a naturalidade – afinal, de Cássio só conhecia e só podia mesmo esperar faixas – e a apreensão própria de quem se vê diante de um jogo dos sete erros, o artista reagiu com seu laconismo calculadamente neutro: “É isso aí. Cada uma tem um tamanho”. (Eu não havia notado.) “As cores também não são as mesmas”. (Idem.)

Coerente com seu trabalho pictórico, Cássio Michalany é um artista cuja conduta insiste em se pautar numa discrição tamanha que às vezes não deixa ver o quanto ela está associada com a certeza e a precisão. Como um profissional da magia consciente dos efeitos que provoca, guiou-me até a segunda sala do atelier, sala também incompreensivelmente despojada, digo, sem as previsíveis marcas de tinta no chão, rastros bagunçados do acaso, sem mobiliário e os apetrechos correntes, objetos cuja presença trairia o ambiente como oficina de um pintor; sem nada digno de nota salvo pinturas e desenhos dele mesmo e de alguns amigos pendurados nas paredes do corredor. Nessa segunda sala o artista, sutil, satisfeito, apresentou-me a maquete exatinha da exposição: a versão antecipada e tão rigorosa quanto possível daquilo que depois de um ano converteu-se em sua exposição na terceira sala do Instituto Tomie Ohtake. Depois, como se não bastasse, mostrou-me algumas pequenas pinturas que, como indicava a maquete, também participariam da exposição; excerto já significativo de uma série copiosa e surpreendentemente seca, série em que dois planos pretos são divididos por uma linha de cor. Por fim, a conversa na sala protagonizada pela mesa onde os trabalhos são projetados – papel branco fixado sobre ela, conjunto de lápis cuidadosamente apontados e arranjados lado a lado, borracha, régua, bloco de post-it justapostos e alinhados paralelamente às bordas do plano branco –, o sofá, o equipamento de som, e a vertiginosa coleção de cds de jazz, cujas lombadas são irrepreensivelmente compostas pelos mesmos planos chanfrados em preto e branco, como se fossem uma citação – voluntária? – de um dos “objetos ativos” do grande mestre construtivo Willys de Castro.

Da maquete para a sala de exposições o único elemento a ser ajustado, até porque não havia outra maneira, foi a iluminação. Cássio optou pela luz branca, fluorescente, o sistema que por sua funcionalidade é adotado em tudo quanto é instituição – dos bancos e supermercados às indústrias – mas evitada por galerias e museus. Explica-se: a luz fluorescente é uma inimiga contumaz dos pintores pelo fato dela modificar as cores e também porque sua luminescência variável, obtida às custas de bombardeamento de um gás, causa um efeito estroboscópico quase imperceptível o que ademais de dificultar o foco termina por cansar a vista.

Como assinalou o grande crítico Rodrigo Naves, as pinturas de Cássio Michalany são dispositivos de aperfeiçoamento do olhar. Razão pela qual ele é um pintor de pintores, um artista cultuado pelos outros artistas. E o motivo deste texto iniciar-se pela altura da primeira visita após o convite feito ao artista é para que o leitor tenha de saída uma noção da abrangência do rigor com que ele leva as coisas.

Entrando-se, afinal, na exposição, depara-se com as seis telas, os seis dípticos, dispostos ao longo da parede em frente de trinta metros de extensão, trinta e um, como precisaria Cássio. À direita e à esquerda, nas duas paredes laterais de dez metros cada uma e avançando pela mesma parede em que estão as duas portas desta sala, o conjunto de vinte e seis pequenas pinturas, todas elas com as mesmas dimensões (0,20 x 0,41 cm).

Seja porque o visitante possivelmente acabou de visitar as outras duas salas, cada uma delas abrigando, respectivamente, pinturas de Delson Uchôa e Caetano de Almeida, e, portanto, estará saturado de cor, seja porque não é preciso ter visitado essas duas salas, porque basta viver numa cidade como São Paulo para se estar mergulhado em um mar de imagens e cores, o fato é que as telas de Cássio, no que são ajudadas pela maneira como foram arranjadas no espaço, impregnam as paredes brancas e os olhos do visitante com sua melodia discreta, seu ritmo compassado, sua vizinhança do silêncio. O artista evita as cores mais gritantes, as cores cuja expansividade nos agarra pela gola, preferindo, em seu lugar, aquelas menos “artísticas”, mais sóbrias, tão triviais quant.o o cinza das estantes metálicas, o branco das fórmicas que revestem os armários, o preto dos objetos sobre a mesa. A estrutura simplificada de suas pinturas – são apenas faixas, logo se vê –, a ausência de um gesto qualquer, mesmo que sem eloqüência, tudo isso faz com que elas corram o risco de serem tomadas como objetos comuns, sensação que o fato delas virem em série só acentua. Parecem desafiar a monotonia, dela tomando emprestada a repetição obsessiva. Quando então elas iniciam um movimento que o termo hipnótico serviria para descrever.

Para tanto, é claro, deve-se olhá-las com cuidado, o que implica um trabalho corporal: aproximar-se delas, até porque o tipo de luminosidade do ambiente, como já foi dito, obriga a tanto, repassá-las uma a uma, afastar-se para mais uma vez visualizar o conjunto, pressentindo-se mais e mais que algo acontece: um murmúrio, algo que embora esteja logo ali prefere manter sua condição secreta. Quando então vê-se – ou não se vê... – que as dimensões variam: as duas telas maiores no centro – 1,35 x 2,40 cm –, as duas menores – 1,35 x 1,80 cm – à esquerda e à direita delas e, em cada uma das extremidades, a de tamanho intermediário – 1,35 x 2,00 cm. A ordem das pinturas faz com que sentido de expansão provocado pelas faixas brancas e mesmo pelos espaços entre as telas seja sucessivamente premido por timbres cortantes que se apresentam em ritmo sincopados. Simultaneamente percebe-se que aquilo que passa por preto, que tomamos por preto, ainda mais que estimulado pelo branco invariante e pela luminosidade difusa do ambiente, vai se transformando em verde bem escuro nas telas centrais, em roxo bem escuro nas intermediárias e em marrom bem escuro nas que estão nos cantos. Três cores próximas do preto a ponto de quase se confundirem com ele. Três possibilidades do escuro fabricadas com empenho e precisão.

Depois de alimentado por essa experiência, o olhar, ainda à distância, sente-se convidado a deslizar calmo pela superfície das vinte e seis pequenas pinturas, cada uma delas formada por dois planos pretos separados pela presença de uma linha de cor mais ou menos afirmativa, do verde claro ao preto. A cor realizada em tinta brilhante escorre verticalmente criando uma fresta entre eles. Nossos olhos correm as pinturas tropeçando regularmente nas linhas coloridas que atravessam o plano retangular preto fosco para dividi-lo ao meio. Em alguns casos – quando a linha é preta ou quase – não se vê o filete, embora ele esteja subtendido. Quando isto acontece o retângulo preto fica aparentemente menor, o inverso do que acontece quando o filete é mais claro. Mas não é o que acontece. As dimensões mantêm-se rigorosamente as mesmas. E essas pequenas telas, por serem realizadas desta maneira, são como uma fração do nosso mundo que, embora tratado como opaco e já conhecido, revela-se fértil e profundo.