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O primeiro contato com Delson Uchôa, não com sua obra, que já conhecia há
mais tempo, deu-se por ocasião do Faxinal das Artes, um programa de
residência artística ocorrido em maio de 2002 numa vila paradisíaca fora do
tempo e do espaço, encravada numa região serrana brumosa e fria no interior do
Paraná, e que durante quinze dias envolveu cem artistas de todo o Brasil.
Habitualmente calmo, o lugar viu-se repentinamente sacudido pela
movimentação dos artistas que trabalhavam animadamente em seus respectivos
chalés e nas oficinas, discutiam com avidez aspectos de suas obras e da arte em
geral, ou que simplesmente celebravam o fato de estarem ali, conhecendo-se e
abrindo um intervalo necessário em seu cotidiano áspero de artista brasileiro.
Pois em meio a tudo isso Delson Uchôa contrastava. Alheio à bulha circundante,
sob o abrigo da lona circense que fazia as vezes de atelier de pintura, o artista
conservava-se inabalável e silencioso, o dia inteiro imerso em seu trabalho.
Havia na sua atitude, na calma digna com que se debruçava e pintava a imensa
lona estendida sobre uma mesa, ou instruindo e acompanhando o empenho
cauteloso dos poucos estudantes/monitores designados para lhe ajudar, algo
daqueles mestres artesãos que vão cruzando fibras variadas – palha de arroz,
milho ou coco –, tecendo os planos curvos que se transformam em cestos, das
mulheres que passam os dias enredando fios coloridos, criando as malhas
quadrangulares que depois esticam em bastidores de madeira e que servem de
base para as colchas e toalhas de filé, ou que, ao contrário, desfiam os tecidos
abrindo-lhes frestas represadas por fios mais grossos, técnica que não por acaso
leva o nome de labirinto.
De fato, compreendido como malha de lógica intrincada, impermeável à
compreensão dos ingênuos, labirinto é um nome à altura do refinamento dessa
prática que de tão popular termina por ser tratada como coisa pouca e ordinária.
Tratamento que se estende ao cesteiro, à rendeira e à bordadeira, profissões não
obstante dignas, cujas origens perdem-se no tempo, embebidas que são do
próprio tempo, como nos lembra a mitológica figura das três parcas – Cloto,
Láquesis e Átropos –, as três deusas gregas que engendravam e definiam a
extensão dos fios das vidas humanas. A pintura de Delson Uchôa retoma a
dignidade expressa na capacidade humana de juntar os fios soltos das
experiências diversas, os tempos esquivos e de tudo que há e que nela se
expressa pela convergência de linhas coloridas dispostas lado a lado, na vertical
ou na horizontal, cruzando-se ortogonalmente para definir territórios, campos de
cor e de luz que ressoam no ambiente. Em suas pinturas os fios de cor, em razão
de serem realizados por pigmentos diluídos em resina acrílica, têm a espessura
de veias sanguíneas, como se conservassem algo dos gestos que as fabricaram.
São também irregulares, possuem a oscilação suave que a régua e, menos ainda,
a máquina são incapazes de alcançar.
Por conta disso, a pintura de Delson Uchôa, conforme diz ele próprio, ao
contrário da maior parte da pintura que se faz hoje, no que é acompanhada pelo
conjunto da produção artística, que por estar acometida da síndrome da
globalização sugere que poderia ter sido feita em qualquer parte do mundo,
afirma sua condição de latina, brasileira, nordestina e alagoana. E faz isso, é
preciso que se reconheça, sem nenhum traço de provincianismo, sem incorrer na
defesa de uma estética pretensamente "mais pura", "a salvo das influências
internacionais". Ao contrário, Uchôa viveu algum tempo entre França e
Alemanha e quando voltou para o Brasil resolveu fixar-se em Maceió, sua terra
natal. Mas não voltou apenas para sua cidade, voltou para a claridade de sua
atmosfera, que faz vibrar a cor das frutas, das pessoas, das fachadas do casario
antigo, dos edifícios altos que insistem em irromper ao longo da cidade que hoje
se esparrama pelo mesmo tabuleiro topográfico onde antes se derramavam os
canaviais, até a ourivesaria das toalhas de rendas estendidas nos varais para a
apreciação dos turistas, até mesmo as pequenas barracas que bordejam o
mosaico entre verde e azul da água do mar que em Alagoas é impossivelmente
cristalina.
Maceió está para a pintura de Delson Uchôa como Recife e seus rios,
Capibaribe e Beberibe estão para a poesia de João Cabral de Melo Neto. E está
presente sob a forma de uma permanente celebração da cor; através de uma
pintura de dimensões monumentais que, como tal, não é feita apenas para os
olhos mas para ser contemplada pelo corpo. De fato, diante delas é quase
impossível resistir ao desejo de se aproximar e não tocar o grão da cor, as linhas
espessas, os filetes coloridos que constituem essas pinturas. Algumas delas
exigem mesmo que se as pegue: aquelas que compostas por camadas
superpostas, pinturas sobre pinturas. Conhecê-las significa visitá-las, entrar
dentro delas, habitar momentaneamente um ambiente de alta temperatura e
festejar o contato íntimo com a cor.
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