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Nublar fronteiras parece ser o traço distintivo da cultura contemporânea.
Publicidade e design não fogem à regra. Nesta exposição de cartazes do Art
Directors Club de Tóquio, identificar limites entre os ofícios é não só
impossível como ocioso. O melhor é apreciar a heterogeneidade da paisagem
oferecida pelas mais de cem peças expostas, comprovando que a gráfica
japonesa contemporânea é marcada pelos signos da diversidade e da surpresa. E,
se o ponto for mesmo entender as relações entre publicidade e design, após ver
a exposição podemos concluir que, desse encontro, as duas saíram ganhando.
Para o olhar brasileiro, o que mais chama a atenção no conjunto dos cartazes é a
atmosfera de liberdade reinante. O que se persegue é sempre o caminho mais
surpreendente, a solução inesperada, a inversão de expectativas. Aparentemente,
não há um conjunto de padrões consagrados ou regras estabelecidas engessando
as soluções, mesmo tratando-se de um mercado altamente competitivo como o
japonês, às voltas com cifras vultosas e anunciantes de peso. Ou seja, estamos
diante de trabalhos pautados pelo mais elevado compromisso com a eficiência
comunicacional, mas que nem por isso abrem mão de outro compromisso vital,
que é a investigação de linguagem.
A exposição está estruturada em três blocos. O primeiro deles é constituído
pelos cartazes que têm na ilustração seu motivo principal. Há uma enorme gama
de soluções: desenhos ultrarrealistas, garatujas casuais, construções geométricas,
pinceladas que ecoam a herança das artes plásticas. Aqui, o público brasileiro
vê-se novamente surpreendido. Não estamos habituados a um uso tão vigoroso e
difundido da ilustração. Essa é outra lição que fica registrada para nossa
posterior reflexão.
O segundo bloco é constituído pelos cartazes ancorados na fotografia. A vertente
realista continua comparecendo em imagens tecnicamente impecáveis. No
entanto, além dela, surge com força uma outra vertente, a das fotos que
incorporam as possibilidades oferecidas pela manipulação digital. Nessas, há
desde efeitos computadorizados evidentes, até sutis deslocamentos que aguçam
a atenção do observador. Ainda na contramão darepresentação realista, vários
cartazes lançam mão de imagens de baixa definição, seduzindo não pelo que
mostram, mas pelo que sugerem. Definitivamente, ingressamos no território da
pós-fotografia.
O terceiro bloco reúne uma mescla de vetores visuais. O principal deles é
constituído pelas imagens geradas exclusivamente por recursos digitais. Ora nos
defrontamos com seres antropomórficos virtuais, ora estamos diante de
geometrias flutuando em um espaço sem gravidade. Esse filão, na verdade, é um
campo enorme de investigação que vem sendo desbravado, e que tende a crescer
ano a ano. Em outro pequeno grupo, quem dá o tom é a tipografia, com cartazes
que exploram o redesenho de letras, a deformação de textos ou que tiram
partido do rigor característico da gráfica institucional.
O time de diretores de arte que integra a exposição pertence ao olimpo japonês.
Estão presentes desde os mestres Ikko Tanaka, Shigeo Fukuda e Kazumasa
Nagai, todos comparecendo com peças representativas de suas trajetórias
pessoais, passando por destaques da geração mais jovem, como Kenya Hara e
Shin Matsunaga, e chegando até nomes que, a partir desta exposição, se
tornarão mais familiares aos brasileiros.
Cartaz é linguagem gráfica na escala do corpo. Essa talvez seja a maior emoção
e a maior surpresa da visita a esta exposição: ver as peças de perto. A relação
direta nos permite apreciar o requinte e a sofisticação com que foram
produzidas e, principalmente, nos permite apreendê-las não apenas com os
olhos, em reproduções diminutas nas páginas de um livro, mas também com o
corpo inteiro, em contato direto com suas generosas dimensões originais.
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