Em sua única itinerância, o Instituto
Tomie Ohtake (São Paulo), a exposição
O(s) Cinético(s) foi concebida pelo Museo
Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em
Madrid, onde esteve em cartaz também em
2007. A mostra que chega ao Brasil pelo patrocínio
da Grupo Telefônica no Brasil e Mapfre Seguros, é uma
rara oportunidade de se ver um conjunto de obras que aponta
diferentes formas de incorporar a mobilidade ao objeto de arte. Seja
pela locomoção física concreta,
virtualidades óticas, ou mesmo a
relação de deslocamento do
espectador – o conjunto de trabalhos
compõe um diálogo intenso com as
transformações da modernidade; ora
advindo destas mudanças, ora
esgarçando os próprios limites de
suas potências.
A mostra Os Cinéticos, realizada a
partir de empréstimos de grandes
museus – MOMA, Pompidou, Whitney
Museum, Metropolitan, Tate Modern, Galeria
Nazionale D’Arte Moderna de Roma, além da
fundamental galeria Denise René, que organizou a
primeira exposição dedicada ao tema, em 1955 –
traz obras desde o final do século XIX até 2006.
Depois de ser exposta no Museo Nacional Centro
de Arte Reina Sofía, na Espanha, vem agora ao
Instituto Tomie Ohtake, reunindo mais
de 80 trabalhos de 45 artistas; entre
pinturas, objetos, instalações,
cronofotografias, serigrafias,
impressões digitais e filmes.
Na aspiração de aproximar-se do movimento, a
exposição empreende talvez um de seus princípios
flexíveis ao escolher não se limitar ao cinetismo
como corrente artística concreta, mas rastrear suas
manifestações em meio à história: uma
retrospectiva de “momentos” cinéticos por mais de
um século – detendo-se em determinadas obras do
construtivismo, dadaísmo, futurismo e do grupo
argentino Madi.
Neste exercício incorpora artistas que tecnicamente não são
considerados cinéticos, mas que têm papel importante para
delinear as bases históricas do que mais tarde se entenderá por
“movimento”; como Naum Gabo, László Moholí-Nagy, Giacomo
Balla, Alexander Calder, Man Ray, Marcel Duchamp, presente com a
emblemática obra Anémic Cinema (1925), vinda do museu Georges
Pompidou, e Salvador Dali, com três obras, entre as quais
“Madonna” (1958), emprestada do Metropolitan. Além de
estabelecer conexões formais com artistas mais jovens como
Keiji Kawashima, Felicidad Moreno e o brasileiro José Patrício.
Já em um segundo e essencial desdobramento desta
perspectiva histórica transversal, reinterpreta o alcance do
cinetismo para além da corrente específica que se desenrolou
na Europa em meados do século XX; recuperando a
importância dos artistas latino-americanos ao discurso geral
da arte moderna. O grupo Madi e algumas obras de artistas
“concretos” da América Latina podem ser considerados sob
este intento; que apesar de trazer figuras reconhecidas pela
crítica internacional dentro da corrente cinética, como Jesús
Rafael Soto, Carlos Cruz-Diez e Julio Le Parc, ressalta uma
abordagem inédita ao incorporar, por exemplo, obras de
Matilde Pérez, Sandú Darié e Abraham Palatnik.
Espacialmente, a exposição focaliza Paris
do final dos anos cinqüenta e sessenta;
quando, em torno da galerista Denise
René, um grupo de artistas, boa parte
latino-americanos, dão base programática à
arte cinética. O primeiro gesto
proto-cinético na América Latina, no
sentido estrito do termo, se produz em
Buenos Aires, quando em 1944 o artista
Gyula Kosice cria uma escultura móvel e
semi-articulada que exigia a participação ativa do espectador (a
peça de referência “Röyi”, presente na exposição).
A expectativa de compreender o movimento, e deixar-se impulsionar
por ele, transparece o grande desafio vivenciado pelo sujeito, que,
consciente ou não, necessita inevitavelmente relacionar-se com a
diversidade absurda do espaço – desde uma situação aparentemente
simples, como estar ao lado de uma árvore: conciliando as
quantidades e qualidades de planos, cores e volumes em alguma
unidade; até complexidade de organizações modernas, que
deslumbraram muitos artistas. Neste sentido as pesquisas plásticas
encontram formas nas quais emerge este todo cambiante, esgarçando
ainda mais as redes de conexão do espaço.