EXPOSIÇÃO
12 março a 28 junho 2009
Terça a domingo, das 11 às 20 horas
Entrada gratuita
AÇÃO EDUCATIVA
Agendamento das 9 às 18 horas de visitas orientadas com atividades educativas para grupos previamente marcados.
Cursos de pintura, escultura, desenho,
vídeo, teoria da arte, música, literatura, filosofia e
curso para professores da rede pública e privada sobre ensino da arte.
Telefone 11 2245 1937
FLYER
Distribuição gratuita aos visitantes da exposição
Em seguida à mostra de pinturas e esculturas encerrada há pouco na Galeria Nara Roesler, Tomie Ohtake, confirmando sua fase notavelmente produtiva, apresenta-nos uma primorosa série de doze gravuras, todas elas igualmente realizadas nos últimos meses.
A relação com as pinturas de sua exposição, como era
de se esperar, é evidente. Feitas que foram no mesmo período, as gravuras, contudo, enfrentam alguns problemas diversos daqueles trazidos pela pintura. E isso se dá não só pela diferença entre as duas linguagens,
com técnicas, processos e resultados muito distintos
um do outro. A pintura de Tomie Ohtake acontece por adições, camadas e camadas de tinta vão sendo aplicadas em ritmo fluente, e embora seja comum que uma tela
seja ocupada por regiões de cor bem definidas, isto quando não acontece de haver a predominância de
uma cor apenas, o olhar próximo desentranhará tons ocultos, vozes divergentes que, aparentemente abafadas, contam, e muito, no resultado final. Ainda em relação a sua pintura, Tomie Ohtake chega à tela tendo passado antes por desenhos preparatórios ou mesmo por pinturas pequenas, espécies de modelos de até 30 x 30 cm feitos com meticulosidade, e que lhe servem de base. Nos dois casos, é comum as pinturas sofrerem algumas alterações de modo que a reconstrução compenetrada dos passos
da artista guarda inúmeras surpresas, dando a ver o conjunto das diversas decisões tomadas, a trajetória que nunca é em linha reta.
Tomie Ohtake também principia suas gravuras através
de desenhos e maquetes, mas, como é próprio desse suporte, sem o controle posterior permitido pela pintura.
A artista ataca a chapa de metal seja desenhando sobre ela ou definindo-lhe manchas e zonas de cor, o que dessa vez faz tendo sempre por critério que cada uma tenha uma única cor dominante, num resultado que ela terá acesso gradativamente, na medida em que o impressor lhe for tirando as sucessivas provas.
O acaso, assim como o trabalho em conjunto com o responsável pela impressão, tem suas vantagens, o que fica patente no material apresentado nessa mostra, a começar pela ousada e bem sucedida versão em preto e branco da mesma série, que a artista nos apresenta aqui simultaneamente.
Um outro dado nessa direção refere-se às seis gravuras de formato retangular acentuado – 37 x 106 cm -, nas quais Tomie Ohtake trabalha horizontal e verticalmente, obtendo sentidos completamente distintos. A artista tem plena consciência de que, enquanto as horizontais constroem com nossos olhos uma relação semelhante a que obtemos com a paisagem, as verticais jogam com o nosso corpo, isto é, comportam-se como corpos diante do nosso próprio corpo.
Tirando partido da orientação “paisagística” de suas gravuras, Tomie Ohtake ocupa-as com linhas orgânicas, ondulações suaves e desencontradas. Uma delas, realizada com variações de vermelho e semelhante às duas pinturas expostas na galeria, tem algo de vista aérea, como quando, à beira mar, colocamo-nos rente
à água, apreciando de cima o chão sob os nossos pés,
o sutil vaivém das ondas convertidas em lâminas finas, executando na areia um desenho de bordas curvas, ininterruptamente destruído e reconfigurado. Outra,
preta e vermelha, pode trazer à memória o perfil de uma montanha alta de contornos harmônicos, uma delicadeza reforçada pelo modo como o vermelho vai sendo paulatinamente sorvido pela escuridão, numa despedida enfatizada por uma pequena, mas nítida fímbria de luz branca montada num setor do dorso sinuoso. Na terceira das gravuras horizontais uma sucessão de formas verdes foliculares, mais ou menos difusas, umas mais próximas, outras distantes de nós, movimentam-se molemente num ambiente denso e silencioso, como se estivessem no chão de um rio ou do mar.
A referência a imagens como montanhas e plantas pode sugerir ao leitor que Tomie Ohtake seja uma artista figurativa o que, senão é um equívoco, é pelo menos uma
redução de uma obra fundada na ambiguidade. De fato, a aproximação de imagens reconhecíveis é um recurso que, se por um lado, facilita a leitura de suas obras, por outro, pode suprimir o grau de abertura que elas oferecem. A artista premeditadamente localiza as imagens numa região entre o familiar e o estranho, uma terra de ninguém, onde a significação apenas roça as formas sem
conseguir fincar-se nelas. É justamente o que se passa com o conjunto de três gravuras verticais, dir-se-ia que mais abstratas.
A fenda profunda, escura e opaca, ergue-se entrecortada por sobre a superficie cinzenta, com as duas extremidades pontiagudas tocando as extremidades da folha de papel, indicando sua potência e tendência ao crescimento. As formas ovaladas coloridas com variações de rosa flutuam no campo escuro, como se levitassem acomodadas no interior de um vaso estreito. Diversa é a situação das duas células distendidas e longelíneas, habitadas por um vermelho fechado: cortadas pelas laterais, seus corpos são visto parcialmente, o que vale como uma estratégia para que ampliemos virtualmente a atmosfera em que
elas estão mergulhadas. Em resumo, fendas e formas ovaladas são, a um só tempo, coisas da natureza, mas também invenções formais que, sob uma aparência simples, desencadeiam sensações complexas nos que se colocam diante delas.
A discussão prossegue com as seis gravuras restantes, divididas em dois grupos de três em que o mesmo retângulo, – 52,5 x 75 cm - são arranjados nas mesmas duas possibilidades dos dois outros grupos. Neles acontecem variações do mesmo jogo inteligente feito
de sutilezas: tensões formais entre a figura, fundo e o quadrilátero exato definido pelo papel; a associação entre forma e cor; o protagonismo de uma cor que se afirma no contraste com outra, ou na maneira como uma sua versão chapada vem contraposta a uma aparência manchada, esmaecida, beirando a desaparição. As lições típicas de Tomie Ohtake, com suas obras indefinidas quanto a sua condição de produto da mente ou da contemplação do mundo. Daí serem tão nítidas quanto enigmáticas.