Uma iniciativa do *Instituto do Imaginário do
Povo Brasileiro, com o apoio da Secretaria de
Estado da Cultura de São Paulo, este projeto, apresentado em três linguagens – documentário, exposição e livro –, reúne 10 nomes de uma
cena da arte brasileira conhecida como
“popular”, mas cuja nomenclatura ainda se
discute para melhor representar uma produção
que brota da cultura de raiz. Daí o interesse em investigar a criação poética deste fazer artístico
pela potência do imaginário de seus autores.
Antonio de Dedé, Aurelino, Francisco Graciano, Getúlio Damado, Izabel Mendes, Jadir João Egídio, José Bezerra, Manoel Galdino, Nilson Pimenta e Véio são os protagonistas de “Teimosia da Imaginação – dez artistas brasileiros”. Registrar universos singularmente iluminados pela expressão dos próprios artistas oriundos de várias regiões brasileiras pautou a seleção dos nomes que compõem o projeto. Por isso, entre os dez, nove estão em atividade, somente Manoel Galdino teve seus depoimentos captados antes de sua morte.
A exposição, em parceria com o Instituto Tomie Ohtake, e o livro, coedição com a Editora WMF Martins Fontes, são duas grandes realizações do Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro, entidade criada para preservar e promover a produção artística de origem popular brasileira. As obras tanto do livro quanto da mostra pertencem a acervos de importantes museus, como Pinacoteca do Estado, Museu Afro Brasil, Memorial da América Latina, Museu do Folclore RJ, Museu do Pontal RJ e Fundação Cartier (Paris), além de destacadas coleções particulares, como a de Gilberto Chateaubriand.
Com curadoria de Germana Monte-Mór e curadoria-adjunta do crítico Rodrigo Naves, a mostra traz cerca de dez trabalhos referenciais de cada um destes mestres, além de exibir os documentários. Por sua vez, o livro, com prefácio também de Rodrigo Naves, texto e entrevistas dos artistas editadas pela historiadora Maria Lucia Montes, é ilustrado com fotos que mostram as obras e os autores
em seus respectivos locais de vida e trabalho. Os documentários produzidos pela Pólo de Imagem, em parceria com a TAL e a TV Cultura, em 10 episódios, ficam em exibição no Instituo Tomie Ohtake durante o período da exposição, além de fazer parte da programação da emissora brasileira. Com direção executiva de Malu Viana Batista, os filmes revelam o processo, a obra e a personalidade de cada um dos artistas, constituindo-se de raro registro desta arte que muito tem a ser investigada. Em todos os episódios (26 minutos, livre) a trilha sonora é de Lívio Tratenberg, contudo a direção tem assinaturas de diferentes cineastas: Claudio Assis - Francisco Graciano, Manoel Galdino e Getúlio Damado; Cecília Araújo - Nilson Pimenta e Antônio de Dedé; Hilton Lacerda - José Bezerra e Izabel Mendes; Rodrigo Campos - Jadir João Egídio e Aurelino; e Adelina Pontual - Véio.
Segundo Naves, na obra destes dez artistas, cidade e campo, ensinamento e experiência, loucura e relação serena com o meio, procedimentos modernos e técnicas tradicionais deixam de se pautar por parâmetros claros e excludentes, embora também se mantenham. “No mais das vezes, porém, eles se encavalam, se sobrepõem de maneira mais ou menos violenta, dando origem a trabalhos de arte que guardam a lembrança dessas relações complicadas e imperfeitas”, completa.

Já Maria Lucia Montes aponta algumas pistas que possibilitam esboçar o perfil do universo deste elenco. “No artista, a imaginação
e o imaginário que o sustenta se dão a ver na obra criada, mas se mostram também na sua fala que revela o lusco-fusco do devaneio
e do sonho que o conduzem à criação, na forma em que sua mão molda o barro, distribui as cores das tintas ou entalha a madeira, na atenção do seu olhar, no esforço de concentração ao aplicar o instrumento de trabalho à matéria de sua criação, na exuberância ou contenção dos seus gestos, na música com que os faz acompanhar, traduzindo às vezes em forma de canção a evocação nostálgica de uma memória ou a alegria de um corpo exultante que canta e dança o sentido da invenção do mundo e de si mesmo...”.