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“Castelo de areia” consiste numa seqüência de 103
fotografias em que cada imagem de 17 por 25 centímetros
está fixada a exatos 3 centímetros da outra. O visitante
demandará um certo tempo para percorrê-la, numa
experiência semelhante a um filme cujas imagens se
sucedem por justaposição. Como elas estão juntas, cada
imagem será influenciada pela anterior e daquela que vem
logo adiante. A seqüência de fotos apresenta uma jovem (a
artista) que se senta na praia bem junto ao mar, no ponto
em que as ondas se desfazem em películas finas e em
brilho suave, deixando-se rapidamente absorver pela areia
dura e escurecida, em pequeníssimos poros e estreitas
aberturas, dessas que deitam bolhas para fora, indicando
as pequenas cavernas existentes mais abaixo habitadas por
criaturas miúdas. Vestida com uma roupa preta que
contrasta com sua pele branca e com os tons de azul que
vem do mar e do céu, ela começa a escavar com as mãos
torrões de areia escura, para empilhá-los aos poucos,
formando uma construção periclitante, um castelo que o
mar não cessa de derreter desde a base, com a constância
de suas ondas leves que o contornam com rapidez e que
vão e que vem. Há algo de infantil nisso tudo e qualquer
um reconhecerá nesse enlevo uma manhã distante. Porém,
como se houvesse chegado ao seu objetivo, a artista
interrompe a construção, põe-se de pé para, em seguida,
destruir tudo com chutes. Feito isso, ela se desloca para o
lado, senta-se, e começa tudo de novo, realiza mais um
castelo, mais uma construção arenosa e insegura que
igualmente será destruída. A rotina – já se adivinha – irá
prosseguir ininterruptamente.
Quer pela idade ou pelo fato de haver saído em dezembro
último do Curso de Artes Plásticas da Fundação Armando
Álvares Penteado, Lia Chaia é uma jovem artista. O que
torna ainda mais surpreendente a clareza das suas
proposições, que esta seqüência fotográfica é exemplar. O
trabalho evoca desencanto, algo de insatisfação, de gestos
cujos produtos são incessantemente negados, impressão
reforçada pelo ritmo e indiferença da beira mar. Mas não é
exatamente isso: a contemplação dos outros trabalhos leva
à conclusão que o que há é o exame atento, crítico, das
possibilidades do corpo. Considerando-se o valor que a
sociedade dá ao gesto do artista, consagrando-o como o
reduto do virtuosismo, o autor de gestos capazes de fundar
mundos, o conjunto de trabalhos apresentados – a
seqüência fotográfica, mais 4 vídeos – desmonta
criteriosamente essa noção. E o curioso é que, à exceção
de uma obra – “Desorientações” – em todas as outras, a
artista, a exemplo daquela que já foi comentada, toma seu
próprio corpo como território de investigação. O que faz
com que os trabalhos sejam, a um só tempo, os registros
de performances realizadas pela artista.
Experiências com o corpo reúne dois
artistas de duas gerações distintas que
colocam o corpo no centro de suas
poéticas. Do corpo como meio ao corpo
como um fim em si mesmo, os trabalhos
expostos demonstram como o território da
arte pode se constituirno laboratório de
questões essenciais. Há vinte anos
radicado em Florianópolis, o gaúcho
Fernando Lindote prefere a calma da ilha
catarinense para desenvolveruma linha de
pesquisa profundamente original e que
pode seralinhada com as últimas
investigações de Lygia Clark ou algumas
experiências de ArthurBarrio. Porsua
vez, os trabalhos da paulistana Lia Chaia
aqui apresentados são os mesmos que ela
preparou para sua formatura em
dezembro de 2001 na Fundação Armando
Álvares Penteado.