A mostra “Eternamente agora: um tributo a Mario Cravo Neto”, organizada pelo Instituto Tomie Ohtake, com curadoria de Paulo Herkenhoff e Christian Cravo, homenageia o grande fotógrafo brasileiro recentemente falecido. Por meio de 50 imagens e três esculturas do artista são traçadas várias dimensões de seu processo poético e de
seus paradigmas conceituais.
O universo de afetos se apresenta por
meio de imagens de seus familiares, como
os pais e os filhos. “A seleção de retratos
não privilegia a fisionomia,
mas o modo simbólico como
Cravo Neto viu cada um deles,
extraindo-lhes a dimensão
interior, usando o processo
fotográfico como um gesto
afetuoso ou atribuindo-lhes
um caráter simbólico”, diz
Herkenhoff. Neste segmento
estão uma escultura (“Exu”) de
seu pai Mário Cravo Junior, uma
fotografia por seu filho Christian
Cravo e jóias de sua irmã Kadi.
Na exposição, algumas relações entre fotografia em preto e branco e a cores foram definidas mediante confrontos do mesmo objeto interpretado nestas duas formas técnicas, ou da verificação no modo em que a pele e o corpo
se esculpiam à luz da ausência ou presença da cor. “O signo fotográfico
na produção de Cravo Neto se molda através de um processo de elegante redução formal, que se explica por suas referências à tradição fotográfica brasileira do pós-guerra (Pierre Verger, Marcel Gautherot, José Medeiros e outros), ao projeto construtivo brasileiro e a seu interesse
no minimalismo norte-americano desde 1970”, explica
Herkenhoff.
Segundo o curador carioca, a mostra indica como os
signos da luz em Cravo Neto surgem por distintos processos. Ora, através de uma encarnação do corpo do objeto fotográfico como matéria e película fotográfica – “a relação encarnada entre pele e película fotografia é uma tônica de sua produção, na qual há signos carnais impregnados
de desejo” – ora, surgem da capacidade do artista em fazer resplandecer objetos banais na obra a cores e, por fim, da questão do uso de cinzas.
No plano da Escola
Baiana de Fotografia
são apresentados
confrontos sintéticos
entre o olhar de Pierre
Verger e de Cravo Neto. Nesse
aspecto, estão a escultura dos corpos
pela fotografia ou a impregnação
simbólica e religiosa da imagem. “O
pano de fundo das relações entre
cultura e tradições afro-baianas
na obra de Cravo Neto admite
referências à literatura de Jorge Amado,
à fotografia de Verger e outros, à pintura de Rubem Valentim e Carybé, à escultura de seu pai, Mário Cravo Junior”, ressalta Herkenhoff. Segundo o curador, Pai e filho se fixaram, sobretudo, no imaginário totêmico em torno
da figura de Exu e Cravo Neto também não se exila de certos aspectos da nova cultura baiana tropicalista que inclui do músico Caetano Veloso ao
poeta Wally Salomão. “No entanto, para não se diluir o foco do tributo, foram evitadas as imagens de personalidades da cultura brasileira em sua produção de retratos”, completa.
As imagens emblemáticas de orixás, a dor existencial transposta
em imagem fotográfica, são também tratadas nesta exposição. Imagens de cicatrizes ou uma instalação sobre um toldo de suas câmeras fotográficas calcinadas num incêndio apontam a correlação entre dor e fotografia, uma das possíveis tarefas do artista.
Segundo Herkenhoff e Christian, o conjunto de fotografias desta exposição constrói a teoria do olhar de Mário Cravo, na qual relações amorosas e complexas, fugazes e sutis entre o sujeito
e o objeto da fotografia, do
fotógrafo com seu estúdio
ou com o aparelho ótico,
bem como sua teoria do
signo, propõem elementos de linguagem. “Aqui cabe falar
de uma marca da produção de Cravo Neto: a fenomenologia da percepção da fotografia reitera
o entrelace pelo desejo e pelo olhar entre imagem, fotógrafo e seu público”, conclui Herkenhoff.
6 novembro 2009 a 17 janeiro 2010
Terça a domingo, das 11 às 20 horas
Entrada gratuita
AÇÃO EDUCATIVA
Agendamento das 9 às 18 horas de visitas orientadas com atividades educativas para
grupos previamente marcados. Cursos de pintura, escultura, desenho, vídeo, teoria da arte, música, literatura, filosofia e curso para professores da rede pública e privada sobre ensino da arte.
Telefone 11 2245 1937
FLYER
Distribuição gratuita aos visitantes da exposição