Sua produção de caráter e temática populares pôde
ascender no encontro com Antonio Vanegas Arroyo,
em 1890. Já há dez anos Arroyo havia estabelecido,
em conjunto com poetas e desenhistas, uma editora
especializada em literatura barata. Historietas, comédias,
canções, biografias de santos e notas humorísticas
difundiam-se pelas praças e mercados, sendo agora
ilustradas por uma produção fervorosa de Posada.
O artista levava assim à prática a frase inspirada de
Rimbaud: "não podes chegar a produzir algo que te
transborde sem que tenhas que extrair de tuas próprias
entranhas aquilo que entregarás ao mundo".
A "maturidade" de sua pesquisa plástica coincide com
a ditadura porfirista no país. Privilegiando monopólios
internacionais e uma política interna latifundiária,
o governo de Porfírio Diaz iria atacar a imprensa autônoma,
por meio de coerção e concorrência de técnicas avançadas,
como a fotogravura. E, neste contexto, como disse Balzac,
"não será culpa do autor se as coisas falam por si mesmas
e falam alto".
É nesse período de fragilidade que José Guadalupe Posada
desenvolve a zincografia: parecida com a lito, esta técnica
utiliza como base uma prancha porosa de materiais mais
econômicos e manuseáveis, como o zinco e o alumínio,
obtendo, pela similaridade da superfície, o mesmo

rendimento. A zincografia consiste

em desenhar sobre uma

lâmina de zinco com uma tinta

especial, aprofundando os

brancos com um banho de

ácido que transforma o desenho

em clichê, pronto para ser

impresso. Permite a utilização

de recursos como luz e sombra,

e meios tons, com a vantagem

de que a matriz fica pronta

para a impressão rapidamente.

"Quanto mais se agiganta a

figura do artista, maior

significação tem a perseverança

do artesanato, sua capacidade

de adaptar-se a condições

técnicas precárias, retirando-

lhes o máximo de

aproveitamento" .
Na vivência nacional do terror político, em que motins
populares, levantamentos indígenas e outras manifestações
eram brutalmente reprimidas, a simbologia da morte - em
sua essência "democrática", pois a todos nivela - adquire
um caráter de resistência popular contra a violência.
Cria-se um culto aos mortos que tem como um de seus
pilares a idéia antiga de se atingir a imortalidade por meio
da memória, capaz de reavivar a consciência histórica.
Deste motivo popular utiliza-se Posada em suas
Cavaleras,
que "adotam formas de tamanha dinâmica plástica, que se
convertem em inspiração para a vida" . Na consciência
intrínseca da morte, que dilui as supostas verdades sobre
as quais se organiza o país, o ritual aparentemente fúnebre
traz uma reflexão apaixonada pela vida.
José Guadalupe Posada (1852, Aguascalientes, México -
1913, Cidade do México), desde pequeno, freqüentou o
ateliê de José Trinidad Pedroza, onde entrou em contato
com algumas técnicas de gravura, expressão que viria a
desenvolver por toda sua vida, produzindo mais de 20 mil
obras no gênero. Nesta época, a rebelião sangrenta contra
a intervenção francesa havia estimulado a formação de uma
imprensa de tipógrafos, gravadores e desenhistas, na qual
Posada logo se inseriu, sob um viés de oposição política.
Em sociedade com Pedroza, abriu uma gráfica que ilustrava
cartazes, retratos de personagens históricos e imagens
religiosas.
Ministrou litografia na escola preparatória da cidade de
Leon, de 1883 até 1888, quando, após uma enchente que
matou diversos de seus familiares, ele se mudou para
capital mexicana, nesta época habitada por cerca de
350 mil pessoas. Na cidade do México, trabalhou no ateliê
do militante Ireneo Paz, ilustrando publicações como o
Diário de La Pátria, a revista
La Pátria Ilustrada e a
Revista
de México. Além disto, iniciava em seu próprio ateliê, uma
série de caricaturas políticas e de ilustrações de cenas
cotidianas, que, afora o caráter satírico próprio do gênero,
traziam maneiras peculiares de pensar o desenho:
simplificações e deslocamentos.