ZINCOGRAFIAS DE JOSÉ GUADALUPE POSADA

Esta é a última da série de quatro exposições
que comemora os 5 anos do Instituto Tomie
Ohtake. A mostra traz pela primeira vez ao Brasil
o gravurista que se tornou marco na arte e
iconografia mexicana, José Guadalupe Posada
(1852-1913), reunindo cerca de 50 zincografias -
técnica inventada pelo artista - expressivas de
sua vasta produção. O conjunto de obras,
pertencente ao Ministério das Relações Exteriores
do México, consiste em 37 gravuras assinadas
por Posada, mais sete feitas em parceria com
Manuel Manilla (1830-1895), seu precursor, que
participa ainda com três trabalhos, além de três
peças anônimas.
Posada criava desenhos, gravuras e caricaturas e
ficou consagrado pelos seus trabalhos sobre a
morte - uma pesquisa plástica de alto teor
político. Segundo Diego Rivera, "a obra de
Posada simboliza todas as potências escuras e
profundas de seu povo, o rosto complexo e nobre
do México, cuja ternura e virilidade expressa com
soberana beleza".

O artista mexicano sempre trabalhou com
ilustrações, que se caracterizam pela
predeterminação do tema e rigidez da forma,
entretanto a desenvoltura plástica de suas
imagens permitiu que os trabalhos
transcendessem a temporalidade fugaz da
temática, revelando autonomia estética. Por trás
da aparente simplicidade das imagens, havia um
domínio preciso de ritmo, variações de preto,
branco e meios tons, criando uma espécie de
movimento contínuo. Deste modo, grande parte
de sua criação alcançou a categoria de signo
- enriquecendo e precisando a plástica nacional.

"Apesar de sua origem indígena, Posada, assim
como outros grandes artistas mexicanos,
ingressou na criação artística por um veio
europeu" , referente até mesmo às técnicas de
impressão que o artista utilizava. Entretanto, até
em seus trabalhos de cópias litográficas de
pinturas européias, existe inevitavelmente um
nível de interpretação e escolha, com os quais
Posada já mostrava a potência de sua
individualidade.
Sua produção de caráter e temática populares pôde
ascender no encontro com Antonio Vanegas Arroyo,
em 1890. Já há dez anos Arroyo havia estabelecido,
em conjunto com poetas e desenhistas, uma editora
especializada em literatura barata. Historietas, comédias,
canções, biografias de santos e notas humorísticas
difundiam-se pelas praças e mercados, sendo agora
ilustradas por uma produção fervorosa de Posada.
O artista levava assim à prática a frase inspirada de
Rimbaud: "não podes chegar a produzir algo que te
transborde sem que tenhas que extrair de tuas próprias
entranhas aquilo que entregarás ao mundo".

A "maturidade" de sua pesquisa plástica coincide com
a ditadura porfirista no país. Privilegiando monopólios
internacionais e uma política interna latifundiária,
o governo de Porfírio Diaz iria atacar a imprensa autônoma,
por meio de coerção e concorrência de técnicas avançadas,
como a fotogravura. E, neste contexto, como disse Balzac,
"não será culpa do autor se as coisas falam por si mesmas
e falam alto".
É nesse período de fragilidade que José Guadalupe Posada
desenvolve a zincografia: parecida com a lito, esta técnica
utiliza como base uma prancha porosa de materiais mais
econômicos e manuseáveis, como o zinco e o alumínio,
obtendo, pela similaridade da superfície, o mesmo
rendimento. A zincografia consiste
em desenhar sobre uma
lâmina de zinco com uma tinta
especial, aprofundando os
brancos com um banho de
ácido que transforma o desenho
em clichê, pronto para ser
impresso. Permite a utilização
de recursos como luz e sombra,
e meios tons, com a vantagem
de que a matriz fica pronta
para a impressão rapidamente.
"Quanto mais se agiganta a
figura do artista, maior
significação tem a perseverança
do artesanato, sua capacidade
de adaptar-se a condições
técnicas precárias, retirando-
lhes o máximo de
aproveitamento" .

Na vivência nacional do terror político, em que motins
populares, levantamentos indígenas e outras manifestações
eram brutalmente reprimidas, a simbologia da morte - em
sua essência "democrática", pois a todos nivela - adquire
um caráter de resistência popular contra a violência.
Cria-se um culto aos mortos que tem como um de seus
pilares a idéia antiga de se atingir a imortalidade por meio
da memória, capaz de reavivar a consciência histórica.
Deste motivo popular utiliza-se Posada em suas Cavaleras,
que "adotam formas de tamanha dinâmica plástica, que se
convertem em inspiração para a vida" . Na consciência
intrínseca da morte, que dilui as supostas verdades sobre
as quais se organiza o país, o ritual aparentemente fúnebre
traz uma reflexão apaixonada pela vida.

José Guadalupe Posada (1852, Aguascalientes, México -
1913, Cidade do México), desde pequeno, freqüentou o
ateliê de José Trinidad Pedroza, onde entrou em contato
com algumas técnicas de gravura, expressão que viria a
desenvolver por toda sua vida, produzindo mais de 20 mil
obras no gênero. Nesta época, a rebelião sangrenta contra
a intervenção francesa havia estimulado a formação de uma
imprensa de tipógrafos, gravadores e desenhistas, na qual
Posada logo se inseriu, sob um viés de oposição política.
Em sociedade com Pedroza, abriu uma gráfica que ilustrava
cartazes, retratos de personagens históricos e imagens
religiosas.

Ministrou litografia na escola preparatória da cidade de
Leon, de 1883 até 1888, quando, após uma enchente que
matou diversos de seus familiares, ele se mudou para
capital mexicana, nesta época habitada por cerca de
350 mil pessoas. Na cidade do México, trabalhou no ateliê
do militante Ireneo Paz, ilustrando publicações como o
Diário de La Pátria, a revista La Pátria Ilustrada e a Revista
de México.
Além disto, iniciava em seu próprio ateliê, uma
série de caricaturas políticas e de ilustrações de cenas
cotidianas, que, afora o caráter satírico próprio do gênero,
traziam maneiras peculiares de pensar o desenho:
simplificações e deslocamentos.

1 José Guadalupe Posada, Ilustrador de la vida mexicana. 1992.
2 Idem.
3 Idem.

EXPOSIÇÃO
13 dezembro a 11 fevereiro 2007, de terça a domingo, das 11 às 20 horas.
Entrada gratuita

AÇÃO EDUCATIVA
Agendamento de visitas orientadas com atividades educativas para grupos
previamente marcados.
Cursos de pintura, escultura, desenho, vídeo, teoria da arte, música, literatura,
filosofia e curso para professores da rede pública e privada sobre ensino da arte.
Telefone 11 2245 1937.

FLYER
Distribuição gratuita aos visistantes da exposição

Gran fandango y francachela de todas la calaveras
(Grande fandango e patuscada de todas as caveiras)

Gravura em metal tipográfico 36x25.5cm

Calavera del artesano (Caveira do artesão)
Gravura em metal tipográfico 35x25cm

Calaveras de Don Folias y el Negrito
(Caveiras de don Folias e o negrinho)

Zincografia 26x27cm

Interior de la colegiala de Guadalupe
(Interior da colegial de Guadalupe)

Zincografia 35.5x24.5cm

Don Chepito Torero (Don Chepito Toureiro)
Gravura em metal tipográfico 9x16cm

La calavera revuelta (A caveira revolta)
Zincografia 36.5x26.5cm.