"Nós todos ali éramos sub-Léger."
Tarsila do Amaral

As obras mais recentes de Caetano de Almeida colocam questões cruciais para seu espectador. Devemos nós, em primeiro lugar, devorar seu aspecto citacionista, fruindo toda a abstração que marcou a arte do século 20 e que é revisitada de maneira tão evidente por suas telas? Ou, antes, seria o caso de nos preocuparmos com as questões de fundo para as quais esta mesma apropriação nos desperta? O jogo de atração destas pinturas se instala mediante esta suposta oposição: “Aprendemos a pensar criticamente o cânone abstracionista, mas que prazer ele continua a nos dar”, parecem nos dizer as telas.

Em um país no qual se advoga como central uma vocação estética abstrata, geométrica e construtiva (vocação esta herdada do cubismo, como não se cansam de nos lembrar nossos historiadores do modernismo) , este procedimento reafirma um inequívoco viés crítico, que já vem dando fruto nas obras de outros artistas de São Paulo, como Iran do Espírito Santo, companheiro de geração de Caetano, e Nelson Leirner, mestre de ambos na Faap.

Caetano, no entanto, vai direto à citação. Suas telas grandes, de cores vivas e brilhantes, que denotam um certo encanto narcísico com sua própria fatura, furtam e repetem Volpi, Oiticica, Clark, Burle Marx, Fontana, Pollock, Mondrian, entre outros grandes nomes da abstração do século 20. No entanto, ao contrário das práticas artísticas em torno da “morte do autor” (Sherrie Levine vem à mente), encontramos em suas pinturas um constante remanejar destes repertórios. Assim elementos de uma pintura de Volpi aparecem em sensual interação com Oiticica, Pollock estabelece um estranho diálogo com Mondrian, e assim por diante. As telas obedecem, elas próprias, a rígidos padrões. A nova trama, porém, com suas tintas algo violentas, parece esvaziar o grande esforço de singularização dos mestres do século 20. Misturados, corrompidos e ressignificados, que subjetividade afinal eles singularizam? Ou, melhor, nas palavras do próprio artista: “A idéia de que tudo se repete em um padrão poderia apontar para uma noção de amoralidade que a abstração poderia assumir?”.

Na obra de Caetano de Almeida, a apropriação de imagens vem desde o início de sua produção, sendo que, nas primeiras séries, sua escolha recaía sobre imagens de baixa extração: ilustrações de enciclopédia, por exemplo. O jogo aí era ressignificar estas imagens baratas no contexto da arte contemporânea, provendo-as de novo status. No entanto, desde meados da década passada, as práticas apropriacionistas em sua obra têm se articulado com uma reflexão acerca do acesso à obra de arte (e, por que não, em torno da identidade do artista). Assim, na série anterior Exposição de Quadros (1997), ele repintava a pintura clássica de autores como Poussin e Turner, usando como unidade mínima para compor a imagem retículas industriais, porém pintadas à mão, num exercício de fina ironia.

Nesta sua série mais recente, “Mundo Plano”, fruto de três anos de trabalho no ateliê, Caetano aprofunda esta atitude ao repintar a tradição abstrata com rigor de artesão e paciência japonesa. Ao “retratar” uma pintura eminentemente bidimensional, que não busca o ilusionismo do espaço perspectivado, Caetano também faz referência a um conhecimento da arte por meio da matéria chapada da reprodução gráfica.

Por vezes, os padrões geométricos se aproximam de um universo “baixo”, ligado ao decorativismo de tecidos e práticas populares, de tradições brasileiras, mas também universais (estampas indianas, por exemplo), como na tela “A Terra Vista do Céu” (2002). Trata-se de aproximar a idéia de apropriação com intrincados procedimentos artesanais, mas também de buscar o choque entre fontes eruditas e outras mais populares que convivem com oportunidade iguais no campo pictórico.

Afinal, entendemos que o sentido final desta démarche é o questionamento do papel que a abstração ocupa no nosso imaginário e na cadeia de consumo de imagens a que somos expostos e de que fazemos parte. Posta a serviço de um programa crítico, a abstração se mantém como um importante campo para práticas visuais contemporâneas. Nas pinturas de Caetano de Almeida, o mistério, porém, resiste como um convite a pensar identidade, autoria e origem nas nossas práticas visuais e em suas conexões com nossa sociedade.

1 – AMARAL, Tarsila do. Fernand Léger in AMARAL, Aracy. Tarsila Cronista. Edusp. São Paulo, 2001. Pp. 47 e segs.