Esta exposição realizada pelo Instituto Tomie Ohtake é uma rara oportunidade para
o público brasileiro conhecer a obra de um artista que, na década de 60, foi um dos
ícones da arte que discutia a cultura de massa e o universo imagético norte-
americanos. Vida Animada propõe um mergulho na obra de Roy Lichtenstein,
seminal artista da Pop Art, nessa sua primeira individual no País - e na América do
Sul -, com curadoria de Lisa Phillips, diretora do New
Museum of Contemporary Art, em Nova York.

A exposição, organizada e idealizada por Nessia
Leonzini, reúne 78 trabalhos procedentes de coleções
particulares, entre desenhos e colagens, que oferecem um
panorama de mais de 35 anos da trajetória do artista, e que
também nos ajudam a desvendar algumas das engenhosas
superfícies de suas telas.
Segundo a curadora Lisa Phillips, o desenho foi sempre o núcleo da estética e o ponto de
partida da arte de Lichtenstein, tendo em vista o seu estilo baseado no cartum. Ele
produziu cerca de três mil desenhos e trabalhos em papel no decorrer dos 50 anos de sua
carreira, sendo que todas as suas pinturas e esculturas partiram de algum desenho. Atrás
de uma linguagem aparentemente banal, na qual se apropria da estética de histórias em
quadrinhos e de temas clichês provenientes do universo da comunicação de massa,
Lichtenstein esconde um sutil e complexo pensamento conceitual.

"A partir de imagens vulgares e banais, extraídas de cartuns, história em
quadrinhos e anúncios publicitários, Lichtenstein demonstrou que as imagens
veiculadas pelos canais de comunicação em massa são meticulosamente
produzidas com a finalidade de esvaziar o pensamento, rebaixar a leitura e a
escrita, transformar a fala numa forma de expressão repleta de gírias e balbucios
sem sentido", declara Agnaldo Farias, curador do Instituto Tomie Ohtake. Segundo
o crítico ainda, com seu olhar raio-x, Lichtenstein reproduz friamente cenas do
cotidiano e produtos de consumo, sublinhando o impacto dessas imagens nas
nossas vidas e como elas, e graças a elas, nossos comportamentos, nossas
emoções, nossos principais dramas são tão previsíveis quanto o roteiro de um
desses dramalhões que os canais de tevê nos oferecem diariamente.
Roy Lichtenstein não apenas usava o desenho na
preparação de obras maiores, como também via o
desenho como uma linguagem abstrata de signos. Segundo a curadora da
mostra, ele transformou a linguagem do fazer imagens, o tema de sua arte,
em algo análogo às suas fontes populares, contestando com humor e ironia o
próprio conceito da arte na era da reprodução em massa. "É uma maneira de
descrever meus pensamentos o mais rápido possível", dizia ele sobre seus
desenhos, pensamentos que eram freqüentemente sobre a história da arte,

como demonstra esta exposição que traz diferentes períodos da
produção do artista, da década de 60 a 90. "Em suas cópias e cartuns,
ele retomou gêneros tradicionais como paisagem, natureza-morta e
figura, reanimando e revivendo estes temas acadêmicos tradicionais
no vocabulário moderno", explica Lisa Phillips.

O artista faz parte de uma geração que reagiu ao expressionismo
abstrato, movimento voltado a temas míticos e à expressão individual,
para abarcar o mundo comum, o dia-a-dia, o cotidiano. Com isso, esta
geração, que reunia gigantes como Andy Warhol, Claes Oldenburg,
James Rosenquist e Tom Wesselmann, celebrava a paisagem sem
emoção dos produtos de consumo, extraindo uma diferente dimensão
da psique americana. "Suas imagens eram tão emblemáticas da
cultura americana, quanto a afirmação existencial do ser e do espírito
tinham sido no expressionismo abstrato", comenta a curadora.

Roy Lichtenstein nasceu em 27 de outubro de 1923, em Nova York.
Estudou com o pintor Reginald Marsh na Arts Student League, em Nova
York, em 1940, e no mesmo ano com Hoyt Sherman, na College of
Education: School of Fine Arts and Applied Arts, na Ohio State University,
Columbus. Serviu no exército entre 1943 e 1946 e completou o mestrado
em artes visuais em 1949, quando realizou a sua primeira individual, em
Cleveland, Ohio. Em 1951, aconteceu a sua primeira exposição individual em
Nova York, na Carlbach Gallery, e em 1962 mostrou, pela primeira vez, o
seu trabalho na Leo Castelli Gallery, de Nova York.

Ao longo de sua carreira, Roy Lichtenstein recebeu muitos títulos honorificos.
Em 1979 foi convidado a tornar-se membro da Academia Americana de
Artes e Letras, em Nova York, e em 1995 ganhou a Medalha Nacional das
Artes, em Washington, DC. Foi agraciado com o titulo de Doutor honorário
pela George Washington University, em Washington, DC, pelo California
Institute of Fine Arts em Valencia, California e pelo Royal Academy, em
Londres, entre outros.

A obra de Roy Lichtenstein foi amplamente apresentada em instituições
públicas no mundo todo. Participou da IX Bienal de São Paulo (1967), 33a. e
da 57a. Bienal de Veneza (1966 e 1997) e da Whitney Biennial (1991). Em
1966, o Cleveland Museum of Art apresenta a primeira retrospectiva da
obra de Roy Lichtenstein. Em 1967, o Stedelijk Museum organiza a primeira
retrospectiva na Europa que é, em seguida, apresentada na Tate Gallery, de
Londres, constituindo a primeira exposição deste museu dedicada a um
artista americano vivo. Em 1969 foi realizada a primeira retrospectiva de
pinturas e esculturas no Guggenheim Museum em Nova York. Em 1987, o
MoMA, de Nova York, realiza a primeira grande retrospectiva de desenhos de
Roy Lichtenstein, a primeira de um artista vivo apresentada neste museu.
Outra grande retrospectiva itinerante foi inaugurada em 1994, no
Guggenheim de Nova York, três anos antes da morte do artista, em 30 de
setembro de 1997