Com curadoria de Paulo Herkenhoff, o Instituto Tomie Ohtake apresenta apurada reflexão sobre a obra de Flavio-Shiró. No maior panorama já apresentado, com trabalhos do início da carreira, década de 40, até recentes, de 2008, a exposição traça o percurso deste artista dos três continentes – nasceu no Japão, cresceu no Brasil e há mais de cinco décadas divide seu ateliê entre Paris e Rio de Janeiro –, revelando a sua seminal importância no expressionismo brasileiro.
Além das cerca de 250 obras, a maioria pinturas, provenientes de importantes acervos, como Museu Nacional de Belas Artes, Pinacoteca do Estado de São Paulo, MAM-SP, MAM-Rio, MAC – Niterói, Museu de Arte Brasileira – FAAP, e inúmeras coleções particulares, a mostra traz também, por meio de fotos, documentos e registros, o ambiente da vida de Flavio-Shiró. Com isso traz
mais uma fonte para melhor se compreender a visão humanista
tão celebrada em sua obra. Da origem japonesa, o apreço pela
família, do Brasil a facilidade de fazer amigos que, conjugada ao
precoce interesse pela arte e cultura, o faz estabelecer ao longo
de sua trajetória profundos e generosos laços com colegas
artistas e intelectuais, tanto no país quanto no mundo.
A mostra traça o desenvolvimento da obra de Flavio-Shiró, do figurativismo presente até o princípio de sua vida em Paris (1953), a transição para o abstracionismo informal até a retomada da figuração, sempre tendo o gesto como expressão basilar. Organizada cronologicamente, reúne os trabalhos do começo da carreira, entre os quais ele retratava cenas da vida paulista e carioca. Faz parte deste recorte, inaugurando a mostra e uma série de vinte paisagens, a “Praça da Sé vista da rua Fagundes”, de 1942, e uma curiosa tela de banhistas no rio Tietê, de 1943. Neste período, ainda muito jovem, ele já era amigo dos artistas integrantes do Grupo Santa Helena e seu primeiro nu foi desenhado no ateliê de Rebolo, ao lado de Volpi, Zanini, Rizotti, Penacchi, entre outros. Mais tarde, em 1952, é que vai integrar o grupo Seibi, histórico reduto de artistas japoneses.
Por outro lado, o curador procura também apontar ao espectador as mudanças ocorridas na pintura de Flavio-Shiró, ao colocar lado a lado trabalhos que se separam por quatro décadas. “Nessa justaposição de obras separadas por décadas, Herkenhoff tenta demonstrar o nascimento de elementos que mais tarde se tornariam componentes do meu mundo”, explica o artista.
A exposição demonstra esta sua constante experimentação de novas técnicas, tanto sobre a tela quanto sobre o papel, trazendo até aspectos pouco conhecidos do público, como as suas invenções na fotografia - flashgrafias, fotografismos -, objetos diversos e pequenas esculturas incorporando elementos da natureza.
A cópia de um clássico, como a pintura de Rubens, técnica que praticou
ao chegar em Paris, e um quadro recebido por Tizuka Yamasaki como prêmio, conquistado com Gaijin, em evento na Cinemateca Francesa, encomendado a Shiró pela Société des Amis de Georges Sadoul, historiador do cinema e defensor do Cinema Novo, são algumas das interessantes histórias que acompanham a cuidadosa seleção de obras realizada por Herkenhoff.
Para Herkenhoff, o artista guarda memórias do ruído abafado das caminhadas sobre a neve em Sapporo, cidade onde nasceu, e do calor úmido da floresta em Tomé-Açu, onde primeiro morou no Brasil. “São situações diametrais da experiência do clima, e a memória dessa infância dual - entre o Japão e a Amazônia – evoca os contos aterrorizantes japoneses e o mundo de igarapés, taturanas e cipós, entre uma cultura sedimentada nos séculos e o espaço natural
indômito”, afirma. Segundo o curador, a
pintura de Flavio-Shiró é a cartografia
dessas experiências. “Não há polaridade em
sua fonte em três mundos: a memória da
ação caligráfica oriental; a incorporação do
emaranhado vegetal
amazônico e a
gestualidade da arte
informal européia
dos anos 50”.
Artista presente e
premiado em salões
e bienais, com
destaque para o
Prêmio Internacional
de Pintura na Bienal
de Paris de 1961,
Flavio-Shiró (1928, Sapporo, Hokkaido, Japão)
vem expondo seu trabalho em individuais e
coletivas no Brasil e em países como França,
Japão, Estados Unidos, Reino Unido, Bélgica e
Itália. O artista já ganhou retrospectivas no
Japão, Museu Hara, 1993, e no Brasil, MAM-Rio
de Janeiro, 1993, MASP, 1994, e MAC-Niterói,
1998.