Os trabalhos em vídeo, expressão referência na linguagem da arte contemporânea, são parte do acervo da TATE que esteve em exposição no Instituto Tomie Ohtake, integrando a mostra A Bigger Splash - Arte Britânica 1960 - 2003.

O Instituto Tomie Ohtake recebeu - com montagem especial, ocupando todas as salas do segundo andar - obras marcantes de sete artistas, a maioria ligada à chamada YBA, Jovem Arte Britânica: Douglas Gordon, Mona Hatoum, Sam Taylor-Wood, Tracey Emin, Lucy Gunning, Mark Wallinger e Gillian Wearing. As obras foram selecionadas pelas curadoras da Tate: Joanne Bernstein e Catherine Kinley.

"Esta é mais uma iniciativa do Instituto Tomie Ohtake de trazer trabalhos de um dos mais prestigiados espaços da arte contemporânea internacional e proporcionar ao público brasileiro acesso a uma excepcional coleção de videoarte", declara Ricardo Ohtake, diretor do Instituto Tomie Ohtake.


Sobre as Obras:

Douglas Gordon nasceu em 1966
10ms-1 1994
Filme de arquivo de 16 mm exibido em DVD com tela, 10 minutos e 30 segundos
2295 x 3060 mm
Aquisição, 1997

Muitas das obras de Douglas Gordon tratam das convenções da narrativa cinematográfica, usando tomadas de filmes obtidos em diversas fontes. No início e até meados dos anos 1990, Gordon produziu uma série de instalações em que manipulava tomadas preexistentes de filmes e projetava-as em grandes telas autoportantes. Na mais famosa dessas instalações, o artista diminui a velocidade de projeção do filme Psicose, de Alfred Hitchcock, para que durasse vinte e quatro horas, e a intitulou 24 Hour Psycho (1993). Realizou também várias obras fazendo uso de materiais de filmes médicos antigos que registravam distúrbios psicológicos. Hysterical (1994-95) é um fragmento de um filme de demonstração médica de 1908, que apresenta as técnicas de tratamento de histeria feminina. Em 10ms-1 utiliza uma tomada que documenta os sintomas de trauma de guerra (conhecido na época como "neurose de guerra"), com o registro de manifestações físicas do que mais tarde seria interpretado como histeria masculina. A obra de Gordon investiga a mecânica da percepção visual e psicológica. Em muitas de suas obras baseadas em filmes, o artista utiliza-se de alteração de velocidade e escala para dissecar a técnica cinematográfica e assim chamar a atenção do espectador para detalhes até então imperceptíveis. Essas técnicas desafiam a construção do sentido pela memória, bem como a relação física e psicológica do espectador com a imagem em movimento.

10ms-1 é uma projeção de vídeo numa grande tela autoportante. A tomada de vídeo foi extraída de um filme médico da Primeira Guerra Mundial, onde se vê um homem com distúrbios psicológicos tentando várias vezes levantar-se e andar. Nas primeiras tomadas, ele é visto de pé atrás de uma tela e depois aos poucos caindo no chão. Vestindo apenas roupas íntimas, o homem parece fisicamente saudável e capacitado. O corpo é musculoso e parece em forma. Ele tenta levantar-se do chão várias vezes, mas não consegue. A aparência física saudável torna ainda mais chocante a impossibilidade do simples gesto de ficar em pé. Gordon diminuiu a velocidade da tomada do filme e o emendou num loop infinito, prendendo o doente num constante replay da luta particular com seu corpo.
(Elizabeth Manchester)


Lucy Gunning nasceu em 1964

The Horse Impressionist 1994
Filme em super-8 exibido em DVD, 7minutos e 13 segundos
Presenteado, anônimo, 1997

Lucy Gunning foi aluna do Goldsmiths College em Londres no início dos anos 1990, onde começou a estudar escultura, antes de se voltar à performance e teatro. Em seu primeiro vídeo, Climbing Around My Room (1993), realizado ainda durante seus estudos, a artista sobe cuidadosamente as paredes de um cômodo, equilibrando-se em estantes, ganchos e móveis sem tocar o chão. The Horse Impressionist foi realizado no ano seguinte. Consiste na filmagem de cinco mulheres, selecionadas pela artista por meio de um anúncio de jornal, produzindo gestos de cavalos. Os dois trabalhos têm em comum o tema das brincadeiras infantis ou fantasias, conectadas a associações femininas estereotipadas. Em entrevista não-publicada de abril de 1996, Gunning explicou:

Sempre tive interesse na relação entre mulheres e cavalos. Quando era criança, passava horas fazendo de conta que era um cavalo. Conversando com outras pessoas, descobri que elas também faziam isso, e que isso era uma coisa que de fato as meninas sempre faziam, não os meninos...(Eu) gostava de olhar para aquilo, pensando bem, quem é o cavalo e quem cavalga...

Foi importante para Gunning filmar mulheres que fingiam cavalgar ou ser um cavalo na infância, e não mulheres que simplesmente respondiam ao anúncio. Gunning filmou as mulheres em vários locais, principalmente em parques. Cada uma foi filmada de modo diferente, de acordo com a reação intuitiva de Gunning a elas, em vez de seguir um plano preexistente. Todas as mulheres produzem sons similares, mas usam uma linguagem corporal muito diferente. A primeira cobre a boca enquanto relincha, rindo de tempos em tempos para a câmera. A segunda personificação é mais física. A mulher trota de um lado para o outro, ergue as mãos e os braços, balança a cabeça como um cavalo que empina e relincha. A terceira mulher, claramente mais tímida diante da câmera, anda para dentro e para fora do enquadramento produzindo sons semelhantes aos de cavalo, mas quase não faz gestos físicos que indiquem o animal. A quarta mulher trota de um lado para o outro fingindo ser cavalo e cavaleiro ao mesmo tempo. A quinta mulher simplesmente fica encostada de pé em um muro de tijolos e sorri, tímida, para câmera após produzir os sons de cavalo. As várias performances são habilidosas e ao mesmo tempo cômicas, para o performer e espectador. Barulhentas e insistentes, elas beiram o sinistro e o histérico.
(Elizabeth Manchester)




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