Instituto Tomie Ohtake - A Artista e suas Obras




Rio de Janeiro, julho 2000
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Diante da sua pintura, o crítico vive um permanente desafio: ou fala de pintura,
ou deve recolher-se. Com efeito, em suas telas, Tomie Ohtake não descreve
situações vividas ou sonhadas, não comenta nem recria a realidade à sua/nossa
volta, não avança para análises sociais ou políticas, não é nem confessional nem
autobiográfica. Assim, não há nada em que o crítico possa agarrar-se para
escapar ao desafio de falar de pintura.

Mas falar da pintura de Tomie é falar, antes de tudo, da forma. É dela que nos
recordamos quando pensamos em sua pintura. Em 1976, comentando uma
exposição da artista, escrevi: “Guarda-se na memória, com absoluta nitidez,
aquela precisa forma, ao mesmo tempo rigorosa e suave. Guarda-se na memória
aquele gesto preciso, que faz caminhar a cor dentro da cor, em ondulações.
Guarda-se na memória aquela precisa forma/cápsula, como que suspensa no
espaço, ao mesmo tempo tão solidamente presa à tela. Guarda-se na memória
aquela precisa sucessão de formas-em-arco, ocupando a parte inferior da tela.
Formas precisas e nítidas, que nos emocionam como certas manhãs de sol,
muito claras, quando todas as coisas parecem adquirir o mais perfeito equilíbrio,
como a luminosidade calma e macia de certas tardes outonais, como a inteireza
da pedra, da onda, do silêncio”.

É como se Tomie Ohtake criasse as formas que precisamos ou desejamos.
Formas nítidas e precisas, capazes de atender às nossas necessidades, que são
profundas e permanentes, de ordem e de beleza, de claridade e de frescor, de
transparência. Formas que funcionam como uma espécie de higiene do olhar,
um contraponto necessário à fragmentação e dispersão do mundo atual, caótico
e veloz, apegado à materialidade dos objetos e ao consumo. Um contraponto
necessário ao excesso de realidade contingente, ao bombardeio de informações
inúteis veiculadas pelos meios de comunicação de massa. Por isso suas formas
permanecem em nossa memória como modelos ou arquétipos de um mundo de
luz limpa, saudável, digno de viver.


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Porém, forma não é invólucro, da mesma maneira como o conceito de precisão
não se esgota no campo visual. É antes de tudo um princípio formador. Na
perspectiva da teoria da gestalt, a forma é estrutura. Uma estrutura totalizadora.
O mundo é regido por determinadas leis que não percebemos visualmente. É o
artista, como afirmou Klee, que torna visível o invisível do mundo. Assim,
temos o mundo como Forma, isto é, estrutura, e como formas, isto é,
manifestações individualizadas, particulares. Entretanto, esta forma
particularizada é simultaneamente cor, textura, matéria pictórica, um modo de
pincelar e, no limite, um clima, uma atmosfera. Vale dizer: integram uma
estrutura maior, mais complexa, um continuum espaço-temporal, que é a Forma.
A pintura de Tomie Ohtake é Forma e formas.

O crítico e historiador Lionello Venturi escreveu, em 1969: “A perfeição da
forma não existe, isto é, toda forma é perfeita quando criada. A perfeição da
forma depende da personalidade do artista, e isto é tudo. Para ver se a forma é
perfeita basta reconstruir a personalidade do artista e compreender se ela tem
sido absorvida por sua imaginação criadora”. É verdade. As formas criadas por
Tomie persistem em nossa memória, enriquecendo nossa existência, porque são
consistentes, íntegras, inteiriças. E são convincentes porque se sustentam numa
personalidade forte. Não importa se depois de concluídas, postas a viver na tela,
no mundo da cultura, elas se tornem impessoais e anônimas, como tantas outras
formas, que a cada momento estão confirmando a beleza do mundo.


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Num dos raros depoimentos de Tomie Ohtake sobre sua obra, publicado no
catálogo do XV Salão de Campinas, 1975, ela afirma: “A minha obra é
ocidental, porém, sofre grande influência japonesa, reflexo de minha formação.
Essa influência se verifica na procura de síntese: poucos elementos devem dizer
muita coisa. Na poesia haikai, por exemplo, fala-se do mundo em 17 sílabas.
Sendo poucos os elementos, eles devem ser muito precisos, tanto na forma
quanto nas cores e nas relações”. A artista nasceu em Kyoto, uma cidade
sagrada, onde os edifícios religiosos, construídos com madeira, são
estruturalmente impecáveis. Os encaixes, os espaços internos, valorizando os
vazios, os telhados e as varandas revelam uma extraordinária economia
expressiva. Essa vivência do sagrado foi complementada com estudos da arte da
caligrafia e do desenho, nos cursos primário e secundário. Mas Tomie, que se
transferiu para o Brasil em 1936, só iria iniciar-se em pintura em 1952.
Contudo, definiu seu próprio repertório de formas, impregnando-as com sua
personalidade, somente nos anos 70, quando a artista, já perfeitamente integrada
ao circuito brasileiro de arte, alcançou, no dizer de Mário Pedrosa, “os altos
padrões espirituais colocados pela sua personalidade”, reencontrando, ao mesmo
tempo, suas raízes japonesas. O que Noma Seroku definiu como a característica
fundamental da arte japonesa – “a profundidade espiritual que se encontra na
simplicidade de sua expressão” – aplica-se, também, à pintura de Tomie Ohtake.

Artista construtiva, Tomie não apóia seu trabalho criador em bases matemáticas
ou no autoritarismo das linhas retas e planos ortogonais. Se, como vimos,
raramente se dispõe a explicar seu trabalho, é porque ele não se prende a
nenhum dogma estético, a nenhuma teoria prévia. É uma intuitiva, como tantos
outros artistas construtivos brasileiros. Seu método de criação é empírico, o que
não lhe retira o rigor nem nos impede de analisar sua pintura em termos
intelectuais, levantando algumas constantes ou categorias formais, que são
recorrentes nas diferentes etapas de sua obra e que, perfeitamente coerentes,
resultam num “discurso de formas”, conformando um pensamento plástico.


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A fase figurativa de Tomie, muito curta, conta pouco no conjunto de suas obras,
no entanto, destaca-se uma tela de 1952, na qual vemos uma seqüência de casas
conjugadas cortando a tela em diagonal, que antecipa a composição em arcos
amarelos, encadeados, produzida em 1974. O telhado que se impõe como uma
grande faixa vermelha, à esquerda, na tela de 52, é como que deslocado para o
chão, na obra de 74. A função de ambas as faixas é manter a composição na
bidimensionalidade do plano. Outro ponto comum: a dominante amarelo-
laranja. Segue-se um período de tateamentos, no qual a artista oscila entre uma
figuração residual e uma vontade de abstração, entre a linha, ainda atada à
figura, e a mancha que quer se impor, entre um grafismo persistente e a matéria
que se insinua quase tátil.


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