Instituto Tomie Ohtake - A Artista e suas Obras


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Porém, foi na virada da década, 1959-62, que Tomie surpreendeu com uma série
de trabalhos impecáveis, que não reluto em apontar como um auge da abstração
informal no Brasil. Na verdade, rotular esses trabalhos de informais é uma
impropriedade, pois nada há neles que os aproxime da retórica gestualista do
tachismo, da velocidade de execução como norma, da matéria ocasionalmente
atraente, mas decorativa. Ao contrário, são trabalhos sofrida e demoradamente
elaborados, camada sobre camada, um diálogo ininterrupto e persistente entre o
por e o sobrepor, entre o des-fazer e o re-fazer, entre manchar e des-manchar,
entre linhas, quase-sulcos, grafitadas diretamente na matéria e extensas áreas de
não-cor, entre áreas sombreadas e áreas iluminadas, tudo isto para afirmar, ao
mesmo tempo, a superfície porosa da tela (espaço) e as profundidades (tempo).

Estas telas representam o primeiro esforço consciente de Tomie no sentido de
definir a pintura como forma. Forma viva, segundo a formulação de Susanne
Langer, que fala não de formas precisas, mas sim daquelas em movimento,
heraclitianas, puro devir. A forma nascente, que se realiza em movimentos
contrapostos, divergentes ou convergentes, que ora se expandem até quase
sangrar os bordos da tela, ora se concentram, como se buscassem a acalmia
temporária de um centro para, novamente, de modo quase instantâneo, refluir
em ondas, espirais, concavidades, quedas, mergulhos, abismos, vórtices. Entre
os extremos do preto e do branco, múltiplas tonalidades cinzas, que se
conjugam com azuis quase apagados, ocres, vermelhos ferruginosos. A linha se
dissolve na mancha, o rastro do pincel e da trincha submerge na matéria
pictórica. Súbito, um amarelo tenta vir à tona e açambarcar toda a superfície da
tela, como se fora o que restou da onda que se esvai em espuma na praia, até ser
tragada pela areia. Areia que guarda, por um momento, a memória da água –
"aéreos jardins de espuma sitiando a forma viva".


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O que se segue, ao longo de toda a década de 60, é o esforço de Tomie para
estancar a fluidez anterior, o refluir constante da forma, como se, num assomo
de “consciência clássica”, buscasse substituir o precário, o instável, o
impermanente e o incontornável da forma viva por algo sólido, consistente,
perene. Porém, não o classicismo que remonta à sua origem grega ou ao
minimalismo contemporâneo, mas uma espécie de brutalismo vivificador, nem a
forma limpa, o contorno preciso, a matéria lisa, mas sim a forma quase rude, a
matéria corrugada, o contorno irregular. O grafismo cede, a mancha se consolida
em áreas/massas compactas, quase planos, a diagonalidade cromática dos
cinzas, intervalada por tonalidades frias, é substituída por amarelos sonantes,
vermelhos intensos, azuis ou verdes introvertidos, em confronto amigável com
negros ou brancos opacos. É um período de intensa experimentação e, por isso
mesmo, desigual como resultado. Porém, entre avanços e recuos, Tomie começa
a definir um repertório de formas, algumas das quais, continuamente
reformuladas, irão se tornar recorrentes em sua obra. A fenda abre uma fresta
por onde passa uma nesga de luz ou divide o retângulo em dois e estes, ainda
umbilicalmente presos, se flexionam, simetricamente. O semicírculo aparece ora
sozinho, como se fora um braço de rio, ora em frente à sua contra-parte, ambos
ligeiramente torcidos, criando entre eles espaços virtuais. O triângulo é como
um bólido irrompendo bruscamente no espaço, precariamente equilibrado entre
as quatro “paredes” da tela. Tomie joga continuamente com estas e outras
formas, às vezes quase se tocando ou tendo a separá-las formas menores,
negras, às vezes, ainda, superpostas, como puras camadas de cor.

Monumentais, impactantes, potencialmente abstratas, estas formas-signos
lembram menires, toscas arquiteturas de pedras, bípedes. A meio caminho entre
figura e abstração, repousam, ascendem ou flutuam no espaço da tela, deixando,
assim, sem solução a relação, sempre problemática, entre fundo e superfície,
recriando, assim, contraditoriamente, o espaço representativo. Numa pintura de
1963, obra tipicamente de transição, mas plenamente realizada, a cor ocupa
integralmente o espaço da tela, que está dividida em dois planos,
cromaticamente diferenciados. O inferior, retangular, ocupa um terço da tela e o
superior, formando um quadrado, os dois terços restantes. O peso maior do
vermelho inferior é compensando pela quantidade maior de branco, que abriga
uma área central, azulada, dividindo virtualmente o plano superior em dois
retângulos. A oposição fundo e superfície persiste minimamente, sutilmente, na
margem estreitíssima a separar a área pintada do bordo rígido da tela. Em duas
outras telas, que estão entre as mais significativas do período, o modo como as
formas-signos foram implantadas no espaço da tela é tão poderoso e perturbador
que elas acabam por contaminar, com sua pulsação, o próprio fundo, que,
ativado, passa a integrar, gestalticamente, a espacialidade da obra.

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No período que se inicia em 1973, é a preponderante curva, em suas diferentes
configurações e desdobramentos: arcos (1973-1982); formas ovaladas ou
capsulares (1976-1979); formas tubulares (1978-1982); formas orgânicas (1979-
1982). Curvas que eventualmente se compõem com retas: quadrados,
retângulos, triângulos, trapézios. Uma seqüência de fotos, reproduzidas no livro
de Casimiro Xavier de Mendonça, sobre Tomie Ohtake, de 1983, ilustra os
mecanismos de criação da artista. Ela aparece sucessivamente lançando linhas
com um bastão de carvão, com o pincel largo, molhado de tinta, correndo sobre
o tecido, de tesoura na mão, recortando, no cartão, as formas que, depois de
muito analisadas e confrontadas, serão implantadas na tela. A produção dos anos
70 tem origem, quase sempre, nessas formas recortadas. É com essas formas –
nítidas, precisas, claras – que a artista irá construir sua arquitetura pictórica. O
edifício Tomie Ohtake.

Se a arquitetura se organiza a partir de uma relação entre peso e suporte, isto é,
entre entablamento e coluna, é o arco que irá determinar os diferentes estilos
arquitetônicos. Se, nos anos 60, foi possível relacionar, aqui e ali, em certas
formas de Tomie, o menir e o dólmem, nos anos 70, a presença do arco é
avassaladora. Assim temos o arco pleno, o arco polilobado, o arco abaulado, o
arco abatido, o arco-cruzeiro e, avançando no sentido da apropriação de
sistemas construtivos mais complexos, arcadas, arcarias, arcaduras,
arcobotantes, arco-montantes, etc.


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