Instituto Tomie Ohtake - A Artista e suas Obras




Rio de Janeiro, setembro 2000
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Na tradição da pintura clássica do zen-budismo, o traço tem preeminência. A
pintura se elabora por meio de "uma linguagem linear de certa frieza,
distanciada e muito pessoal. O traço aqui não possui nenhum valor próprio. É
uniforme no que concerne às suas características: é fino, preciso, de utilidade
objetiva", informa Helmut Brinker 1. Este é o cânon gráfico da arte zen. No
Japão, a adolescente Tomie Ohtake teve aulas de arte no ginásio. Usava o
crayon para criar imagens figurativas, já revelando seu claro interesse pela
cultura ocidental. Recorda-se que “havia pintura japonesa tradicional, com tinta
de terra, mas eu não gostava daquilo, da linha fina e dos detalhes” 2. Essa postura
anuncia uma forma particular do interesse de Tomie Ohtake em arte, que ora
recusa peremptoriamente a tradição oriental enquanto dogma estético, ora atua
em sua perspectiva, reinventando seu sentido para o presente 3.

Tomie Ohtake veio ao Brasil a passeio em 1936. Ficou. Desde seu casamento
em 1937 até 1952, interrompeu a pintura para se dedicar à família. Depois de
retornar à arte em 1952, suas preocupações se deslocam aos poucos para o
abstracionismo. Um pintor japonês, Keiya Sugano, que fazia uma mostra no
MAM nessa época, foi decisivo para seu retorno à arte. Depois veio o apoio dos
críticos Geraldo Ferraz e Wolfgang Pfeiffer. “Mário Schenberg conversava,
estimulava-me a experimentar, dizendo que o trabalho de arte é assim, que nem
ciência”, revela a artista.

A imigração japonesa para o Brasil nas primeiras décadas do século XX iria
necessariamente ampliar a pauta formadora da arte do país. Já não mais por
exotismo como influência européia de “japonaiserie” surgida em conseqüência
do período Meiji, mas pelo encontro fecundador do ambiente artístico local com
esse novo aporte. Instaura-se uma nova etapa no processo de hibridização em
que a cultura do Brasil se formula agora também por sua origem nipônica.
Nesse processo, em que se altera o horizonte e a densidade da arte produzidos
no país, incorporam-se as figuras brasileiras de Tomie Ohtake, Flávio Shiró e
Manabu Mabe, nascidos em Kyoto, Sapporo e Kumamoto. Na obra de Mabe,
sobretudo no final dos anos 50 a meados da década seguinte, o ataque do pintor
à tela convertia toda a gestualidade da arte ocidental, com suas variações do
expressionismo abstrato ao conservadorismo tachista, condensado num gesto
caligráfico forte. Sua pintura se concluía em alusões ideogramáticas. Os gestos
de Shiró operam e consolidam a fusão de experiências e tempos culturais
diversos 4.

Sua pintura conserva memória da ação caligráfica, incorpora o emaranhado das
lianas da Amazônia, onde viveu, e finalmente a gestualidade da arte informal
européia dos anos 50. Na escritura pictórica de Shiró, a imagem funde a
fantasmática da primeira infância no Japão, seu imaginário da vivência
amazônica e se aproxima do simbólico pós-surrealista. Se o espaço renascentista
havia cessado de dar conta das necessidades do mundo moderno e por isso fora
submetido à destruição, conforme Pierre Francastel 5, a obra de Ohtake responde
a desafios de um espaço novo, que inclui encontros espirituais, diálogos e fusão
de culturas por meio do signo material da pintura 6. Tomie Ohtake praticou uma
arte que é suave fricção do desejo de estabilidade no tempo que passa.

Pensar a obra de Ohtake exclusivamente na perspectiva dessa participação
japonesa na formulação da arte do Brasil ou dos interesses no país pelo
pensamento místico asiático seria, no entanto, um ensaio de gueto. O lugar
relativo da obra de Tomie Ohtake na arte do Brasil no pós-guerra é bastante
complexo, assentado sobre aspectos múltiplos. Mário Pedrosa concede seu aval
ao lugar de Ohtake em seus grandes momentos: “Nesses momentos, ela atinge
um nível de integração raro na pintura brasileira atual, pela elevação conceptiva,
sutileza rítmica, retenção e economia de meios e o ímpeto, o arrebatamento dos
espaços criados” 7. Ao lado de sua contribuição individual ao panorama dos
artistas de origem japonesa, algumas outras relações da obra de Ohtake devem
ser buscadas no ambiente da pintura brasileira. A arte singular de Tomie Ohtake
está entre as principais formulações da pintura no Brasil nas últimas décadas.
São cinco décadas de uma carreira intensa e sólida. Alguns contrapontos
específicos são anunciados entre sua obra e a de seus contemporâneos. Com
trajetórias individuais retraídas, Ohtake e Schendel não se afiliaram a grupos ou
movimentos. Ambas, tanto quanto Iberê Camargo, atingem a maturidade
pictórica na década de 60. Certas aproximações identificam o contato entre a
pintura de Tomie Ohtake e determinadas obras do neoconcretismo conforme se
verá.


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A chave da obra de Tomie Ohtake é a pincelada. O gesto é calculado,
disciplinado, não ansioso, despregado de qualquer outra intencionalidade que
não seja se revelar como superfície. A pincelada é comedida, repetida e aí
encontra, no espaço mínimo, a possibilidade da diferenciação no momento
vivencial irrepetível propiciado por cada uma delas 8. Da diferença emerge a
linguagem. Paradoxalmente, é a partir de uma tradição que exclui a presença da
mulher na cena que a obra de Tomie Ohtake parece desenvolver-se: a
perspectiva do teatro Nô, e deslocar-se mais recentemente para o Kabuki. As
duas formas principais de teatro no Japão oferecem o paradigma de paralelos ao
método da pintura de Ohtake 9.

A partir de 1954, Tomie Ohtake fez sua opção pelo abstracionismo. Não se
envolve nos debates da arte concretista, nem se marca pela espessura do
expressionismo abstrato da Escola de Nova York nem pelo informalismo lírico
da Escola de Paris, com seu forte sentido de composição visual ou,
eventualmente, tachismo. Nos anos 60, Ohtake adota uma perspectiva analítica
da pintura enquanto poética de materialidade, espaço e cor 10. A materialidade,
terreno definido por suas noções de pincelada, se concentra em relevos de tinta
acumulada ou se dissolve em transparências. A pintura define a topografia da
superfície pictórica, a qual, por sua vez, instiga os jogos de percepção: o olhar
mergulha nas transparências ou se retém na superfície, travado pelo acúmulo de
pintura. Foi com harmonia que Ohtake administrou esses extremos em que o
espaço é ora a formulação do vazio do mundo, ora o excesso de sua presença
matérica. É aqui que Ohtake cria pontos na superfície para uma relação háptica
com a pintura. Se não mergulha no vazio, o olhar tateia a matéria do mundo.
Sua relação analítica com a cor 11 pode oferecer-nos, por exemplo, uma riqueza
de múltiplas possibilidades do branco. Em jogos com o amarelo, o branco na
pintura de Ohtake é magistralmente capaz de acentuar a luminosidade e o calor,
ou de esfriar a temperatura cromática, se misturado e desdobrado no vermelho,
e ainda operar sombras e profundidades nos jogos com o azul e o preto 12.


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