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"Eu nunca pintei com o emocional. Sempre pintei mais friamente. É sempre
colocando camada, camada, camada. Colocando muitas cores, camada, camada
até chegar onde eu quero. O gesto era bem mais calmo, caía sempre sobre a tela
e seguia uma direção que era mais mental", esclareceu recentemente a artista 13.
Na década de 60, Ohtake desenvolveria um novo método para sua pintura. O
pincel de Ohtake toca a tela, depois percorre segura e ordenadamente a
superfície. A tinta parece fundir o pincel à superfície do quadro. Essa disciplina
da pincelada lembra, de certo modo, a atitude de calígrafos japoneses e
chineses. A consciência da pincelada na pintura e caligrafia na China das Seis
Dinastias desenvolveu, entre seus Seis Princípios, um método estrutural de
utilização do pincel que, ao mesmo tempo, implicava harmonia da alma 14. Esse
ideal taoísta de ação, apesar de alterações históricas, se expande e persiste no
leste da Ásia. O método, rigorosamente repetido, estabelece o repouso da
superfície, caracterizando a pintura de Ohtake.
A pintura de Tomie Ohtake pode ser um cuidadoso trabalho de constituir a
laminação da superfície por meio de camadas de tinta. Por insistência da ação
de pintura, com sóbrio acúmulo de pinceladas, a imagem encontra coesão
pictórica e assim constitui o espaço. Freqüentemente, a capa pictórica não tem
grandes relevos e se constrói como superfície coesa. O tempo flui como
território de formalização do espaço. No método de pintar de Ohtake, existe
algo do teatro Nô, com sua disciplinada lentidão de gestos, solene para os
padrões ocidentais. A pintura, sobretudo dos fins dos anos 60 a meados dos 90,
não se teatraliza em gestos exagerados, qualquer lentidão corresponde à
concentração mental em cada pincelada, quase como se tentasse paradoxalmente
buscar sua identidade e similitude com as anteriores nessa aparente
indiferenciação.
No panorama da pintura brasileira, a pincelada comedida e o gesto padrão de
Ohtake constroem placidez em contraste com a gravidade expressionista da
pincelada revolta da fase dos signos, vórtices, dados e carretéis do mais denso
Iberê Camargo. A obra de Ohtake, como a de Camargo, se desenvolve como
experiência da condução da matéria na pincelada e menos como obediência a
um plano de composição. É no processo vivencial da pintura que equilíbrio e
estabilidade são atingidos como o punctum da pintura. Freqüentemente, a arte
de Ohtake parece almejar uma música, que pode ser composta de puro
silêncio 15. Enquanto Camargo dá visibilidade a seu violento pathos, Mira
Schendel a suas preocupações filosóficas, Ohtake parece buscar a afirmação
mínima e delicada do sujeito da pintura. Em algumas pinturas dos anos 60,
Ohtake raspa a camada branca monocromática que cobre a tela, para recuperar,
em sombras, a base de cor original. É necessário desconstruir o branco, abismo
visual da luz absoluta. É como se, atingido o excesso de luz, fosse urgente
recuperar a presença da sombra para a definição do relevo do mundo.
Algumas pinturas na década de 70 apresentam linhas retas, ângulos e planos
retangulares tratados com disciplinada pintura, mas também imprecisão. Ohtake
inventa um híbrido harmonioso. A própria artista escreve que "a partir de 74 as
curvas dominam as minhas obras como se fossem formas orgânicas" 16. Esse
irracionalismo comedido, deliberadamente instalado no campo da pintura
geométrica, alinha essas obras de Tomie Ohtake no projeto da geometria
sensível da América Latina que é, tantas vezes, informada por idéias
arquetípicas da tradição nativa 17. A geometria sensível é agora fecundada pela
perspectiva da cultura do Extremo Oriente, fundada sobre a síntese como valor.
Nos últimos anos, o método de pintura de Ohtake se alterou radicalmente. Suas
pinceladas passaram a ser pequenos gestos pictóricos curvos, curtos, agitados. A
mão parece mover-se incessantemente de um lado a outro em claro processo de
aceleração. Agora, o pincel, instrumento de trabalho, se desprega da tela. As
pinceladas atuam soltas, segundo um ritmo visual, como se executassem uma
partitura. Entregam-se ao olhar como uma dança do pincel. A arte de Tomie
Ohtake celebra a energia envolvida no ato pictórico. Todo o espaço está tomado
por uma espécie de imantação. As pinceladas criam a superfície ou se
disciplinam em torno de uma definição de um plano circular vazio. A geometria
sensível conforma o vazio zen. Isso significa também que agora o contraste
vibrante das pinceladas aproxima a pintura de Ohtake da energia visível do
Kabuki. A intensidade da cena se agita como superfície da pintura.
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Consistentemente com sua relação pessoal com o zen e afirmando gostar muito
de filosofia, no entanto, Tomie Ohtake confessa não saber se esta forma de
exercício intelectual do pensamento está em seu trabalho. A postura da artista é
harmoniosa com a reflexão de Daisetz Teitaro Suzuki com respeito à razão: "O
zen encontra sua melhor expressão na poesia, e não na filosofia, porque tem
mais afinidades com sentimentos do que com o intelecto; sua predileção poética
é inevitável" 18.
Na cultura oriental, o zen é uma experiência e uma disciplina, com as quais
Tomie Ohtake se envolveu: "Li Daisetz Suzuki. O espírito zen é vida real, não é
nada fazer. É fazer uma coisa que naturalmente aconteceu, não se faz muita
força e todo dia as coisas que acontecem naturalmente e vão acontecendo”. A
poética de Ohtake é o pintar que se vai pintando na disciplina de seu jogo. Não
busca ilustrar, não se apropria, não ilustra o zen. Deixa-se envolver pela pintura,
como uma coisa do mundo, e não tenta compreendê-la a partir de sua aparência
exterior. O interesse nas idéias zen, que se ampliaram no pós-guerra, com a
divulgação no Ocidente do pensamento de filósofos como Daisetz Teitaro
Suzuki, encontrou alguns admiradores no Brasil entre os artistas, de Tomie
Ohtake a Mira Schendel, ou mesmo mais recentemente Arthur Omar, entre
outros. Schendel, ao lado de seu notório interesse pela filosofia ocidental 19 e
pela metafísica do Antigo Testamento e da teologia católica romana (que
aparece em suas monotipias em 1964), voltou-se para o Oriente, envolvendo-se
com o zen, o pensamento místico de Buda e Aurobindo ou a arte de Schi Pau
Chi. Talvez o crítico brasileiro mais envolvido nessa abertura intelectual
houvesse sido Mário Schenberg, promovendo a integração entre ciência, arte,
filosofia no arco Ocidente-Oriente. Para Mira Schendel, por exemplo, o
interesse era mais intelectual, na complexidade de suas investigações filosóficas,
daí a relação mais analítica. O interesse mais bem existencial de Tomie pelo zen
resultou numa impregnação difusa da própria obra. A pintura de Tomie se
desenvolveu como uma prática zen: "O quadro não é uma coisa, mas um
movimento, podia ser antes, podia ser depois", conclui a artista. Talvez fosse
essa a única possibilidade para um indivíduo que vivenciasse o zen como Tomie
Ohtake. Sua pintura parece ser dita pelo zen.
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