


São Paulo, novembro 2001
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Ela é econômica no falar. E não se sabe ao certo se isso é uma decorrência de
seu português pouco fluente, que mesmo depois de sessenta e cinco anos de
Brasil se expressa exclusivamente por meio de frases curtas e substantivas, ou
porque o discurso verbal é mesmo uma floração invisível e efêmera, sendo-lhe
mais interessante manter o foco na concretude do trabalho, numa rotina
disciplinada e infatigável mantida ao longo de mais de cinqüenta anos. Talvez
seja por isso que os registros fotográficos e fílmicos prefiram flagrá-la no
momento da ação, na coreografia pausada e silenciosa que seu corpo miúdo
realiza diante da tela, desfiando os meticulosos passos e gestos correspondentes
à avaliação do desenho ou da pincelada já executados, para logo em seguida,
sempre com mão segura, ir adiante. É comum que as câmaras dos incontáveis
jornalistas e pesquisadores que volta e meia acorrem a seu estúdio se fechem no
movimento de seu tronco e mãos, na lenta sucessão de pinceladas sobre as telas;
na elaboração de pequenas telas, projetos de pinturas maiores; ou na produção
das gravuras, outro campo preferencial de suas experiências. Em particular se
elas pertencerem às séries derivadas da apropriação e retificação de formas
estampadas em gravuras anteriores. Um método singular, segundo o qual a
artista recorta uma gravura sua cuja imagem lhe interessa, recorte que em
seguida ela empunha ao mesmo tempo que projeta uma luz sobre ele. Os
contornos distorcidos das sombras derramadas sobre a matriz da gravura que
está sendo preparada convertem-se num novo ponto de partida.
A economia no falar coincide com o adensamento de uma experiência que
parece tomada pelo sentido senão da urgência ao menos da certeza, como se não
houvesse tempo a ser perdido. Afinal, coerente com uma sociedade que
consignava às mulheres exclusivamente os labores dos espaços domésticos, o
começo de Tomie Ohtake foi tardio, quando já contava com quase 40 anos e os
dois filhos devidamente criados. Desde então a pintura foi a espinha dorsal de
sua trajetória, embora várias bifurcações – como a gravura, os painéis murais, as
cenografias e, mais recentemente, a escultura - tenham ocorrido em seu
desenrolar. E, saliente-se, que essas bifurcações são de tal ordem que tratá-la
como pintora, ainda que na condição de uma das maiores representantes que
essa expressão conheceu entre nós, talvez seja uma maneira imprópria
porquanto reducionista de se referir a uma grande artista.
Ainda assim há que se reconhecer o papel que a pintura cumpriu e vem
cumprindo em sua vida: da figuração algo tímida, resultado natural de um início
calcado em procedimentos acadêmicos, até o mergulho na abstração,
prontamente reconhecido. Um caminho coerente, como que trilhado em linha
suavemente truncada e suavemente reta, e que se inclina rumo a estratos mais
profundos. Suavemente porque, embora interessada na geometria, em particular
nas formas curvas, nos contornos sinuosos e destacados, como é o caso das
pinturas em preto sobre o fundo branco, nossa artista nunca demonstrou
interesse pelos instrumentos que a materializam: nada de esquadro e réguas,
menos ainda de compasso. Geometria feita à mão, com o ritmo e a variação de
peso característica da mão. E com a envergadura do corpo. E sempre tomando
como veículo a cor: seja sobre ela, seja através dela.
Cedo Tomie Ohtake encontrou seu lugar junto aos seus companheiros de
abstração: as manchas que antes tomavam conta de toda a extensão das telas
passariam paulatinamente a ser contidas no interior de planos; planos solitários
e deslocados em relação ao campo quadrangular do trabalho, ou arranjados em
série, sobrepostos, como que desdobrados. Por sua vez, aquilo que antes
pertencia a um impulso caligráfico, linhas soltas e emaranhadas, iria
encaminhar-se por uma presença a um só tempo precisa e incisiva.
Em vez do dramatismo gestual e matérico de um Manabu Mabe, Flavio-Shiró
ou Iberê Camargo, mas também sem optar pelo caráter sugestivo dos planos de
bordas esfiapadas e interligados com delicadeza, de Sheila Brannigan ou
Yolanda Mohaly, Tomie Ohtake afastou-se em direção a uma poética em que
contava mais a fatura mental: telas econômicas, armadas de poucas cores e
planos, elementos postos devidamente em tensão, substância ativa a alimentar
os olhos e, caso seja uma obra de grandes dimensões, o corpo de quem as
contempla.
Há um quê de arquitetônico nesses trabalhos de meados dos anos 60 e
lembremo-nos que arquitetura, como dizia Hegel, é música congelada. Os jogos
com volumes de cores contrastantes, que se sobrepõem, se atraem e se repelem,
garantem uma temporalidade muito própria da música. Em alguns casos as telas
são como que lateralmente atravessadas por imensos blocos escuros, pesados e
silenciosos; sozinhos, impelidos por um movimento cuja causa desconhecemos,
ali permanecem não obstante notarmos que a inércia, também expressa em sua
textura densa, ainda poderá levá-los a mover-se mais ainda. Outras vezes o
sentido de deslocamento é dado pela repetição de um mesmo plano, como se o
primeiro deles fosse apenas o início de uma pilha que se vai desmanchando pela
ação de um vento. O plano descreve uma trajetória horizontal enquanto sofre
ligeiras torções. Em outras telas o deslocamento é vertical: planos
quadrangulares maiores e menores empilham-se como se estivessem ascendendo
ou caindo, desequilíbrio que depende da posição deles entre si e do limite
inferior da tela.
A relação entre forma e cor, equação essencial da artista, vai alcançar sua
condição mais plena a partir das telas realizadas ao longo dos anos 70. É
fascinante apreciar o arco compreendido por elas, o modo como vão
abandonando um acabamento mais crespo, crispado, até que os planos de cor
que as compõem se tornam uma superfície lisa e tão fina que sua pele se rompa
e eles se esgarcem. De fato, há casos em que a pintura é tão transparente que se
lhe nota a trama do tecido sobre o qual foram aplicadas. Nada da antiga massa
pictórica, de fazer cantar o grão que constitui a massa cromática e por
conseqüência o gesto que a modelou por meio do pincel. Agora o pincel desliza
seguro como se brandido por um calígrafo, como um fiel servo da mente, ainda
que aqui e ali irrompa porções mais texturadas a denunciar a presença do gesto.
Embora as construções plástico-formais das pinturas que pertencem a esse
período sejam profundamente tributárias da geometria, elas, diversamente do
concretismo paulista, movimento que coincidiu com os primeiros anos da
artista, não habitam o mundo das idéias. Além de coloridos - e em alguns casos,
vivamente coloridos -, trazem freqüentes alusões aos pilares e pórticos,
elementos da arquitetura. Observa-se que alguns planos arrematados por uma
linha curva são ligeiramente sombreados, efeitos que os metamorfoseiam em
cilindros. Aliás, a variação tonal de um mesmo campo é índice de que uma luz
exterior incide sobre ele: volumes sob o sol, o que corresponde à célebre
definição de arquitetura de Le Corbusier.
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