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Powers of Ten

“Em 1977, foi concluída a versão definitiva do filme Powers of Ten (Potências de dez), dirigido pelo casal Charles e Ray Eames (pioneiro no design industrial para produção em massa). Distribuído pela IBM, que colaborou para sua viabilidade técnica, o lançamento de 1977 tinha como subtítulo “Um filme que lida com o tamanho relativo das coisas no universo e o efeito de adicionar outro zero”.

 

Com esse enunciado um pouco frio, sem grandes promessas de aventura ou sedução, foi lançada uma obra audiovisual que ajudou várias gerações de pessoas de todo o mundo a expandir seu imaginário sobre o lugar do humano entre as mais extremas ordens de grandeza, do mínimo ao máximo.

 

Para muitos, esse filme foi, e ainda é, um gatilho para perceber os níveis de complexidade guardados além dos limites da percepção humana. Por esse motivo, Powers of Ten foi escolhido como o ponto de partida da exposição Nós entre os extremos. Um caso excepcional de produção artística e cultural que se alimenta dos mundos descobertos pela ciência no interior e nas bordas do mundo que percebemos diretamente pelos nossos sentidos.” (Paulo Miyada)

 

 

 

POWERS OF TEN (1977)

 

Em nota escrita quando do lançamento do filme Powers of Ten (1977), o casal Charles e Ray Eames assim justificou sua produção: “Nos últimos 50 anos, o mundo gradualmente vem descobrindo algo que os arquitetos sempre souberam, isto é, tudo é arquitetura”.

 

A afirmação dos Eames, não por acaso, explicita convicções e parâmetros que estariam presentes na vasta produção que, a cargo do Eames Office, tornou notória a atuação do casal. Do seu vínculo com o design e a arquitetura, pensados e desdobrados não somente como prática profissional, mas também como vivência cotidiana, estabeleceu-se uma produção vasta e interdisciplinar que abrangeria relações com o cinema, a ciência e tantos outros campos.

 

Suas peças e projetos passavam por processos de desmembramento, rearranjo e combinação, tendo na estrutura a expressão sintética da arquitetura. Tal pensamento se reflete também em outros âmbitos, incluindo sua produção cinematográfica. Seus filmes são testemunhos vivazes dos fenômenos que servem de gatilho ao processo criativo do casal. A atenção voltada a objetos simples, aos seus elementos constituintes e estruturais, ao modo como o olhar fotográfico e

cinematográfico enquadra e amplia detalhes do que se observa, revelam o seu ímpeto na desconstrução da estrutura das mais distintas coisas, de peças de mobiliário a elementos arquitetônicos.

 

O interesse dos designers pelo cinema expressou-se graças ao contato com produtores e cineastas hollywoodianos. No início dos anos 1950, Charles trabalhou como diretor de arte da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), passando a conviver com uma série de profissionais envolvidos nessa indústria. Um importante contato estabelecido nesse período é o então vizinho e cinéfilo John Entenza, diretor da revista Arts and Architecture e idealizador do programa habitacional Case Study House (CSH), que mobilizou uma série de arquitetos americanos e europeus. É no âmbito do CSH Program que Charles Eames e Eero Saarinen projetam a residência de Entenza (CSH #9) e a primeira versão da residência dos Eames (CSH #8), depois reelaborada em parceria com a esposa.

 

A amizade com o diretor Billy Wilder também é representativa desse contexto de aproximação com o cinema. Charles realizou um registro aéreo para o filme de Wilder sobre o aviador Charles Lindbergh, The Spirit of St. Louis (1957).

 

Inicialmente, os Eames se aproximam da cinematografia por interesses didáticos, mas rapidamente a pesquisa audiovisual ganhou papel determinante em sua produção. Iniciaram seus experimentos com sequências de diapositivos e, com base nesses experimentos, realizaram uma série de curtas-metragens como protótipos e testes de combinação de imagens das mais diversas naturezas. Nesses filmes, buscavam apresentar conceitos complexos utilizando justaposições e sequências de elementos cotidianos. Da observação de um objeto ou de um gesto prosaico podia emergir uma gama de interpretações da realidade. São os filmes em que conceitos científicos eleitos demonstram como sua apreensão pode ser uma experiência sensorial, quase instintiva, graças a uma escolha precisa das imagens. Tal abordagem rapidamente cativou o interesse de importantes empresas como a IBM, a Polaroid, a Herman Miller e a Westinghouse, que encomendaram aos designers apresentações de seus produtos.

 

Destacam-se os inúmeros curtas-metragens produzidos para a IBM, em que diferentes cores, desenhos e jingles cativantes são aplicados ao cotidiano, a fim de apresentar complexos conceitos da ciência e da matemática. São os casos de The Information Machine (1957), Introduction to Feedback (1960) e The House of Science (1962).

 

Em 1959, o alcance dos Eames extrapolou os contratos com as empresas e chegou ao governo americano. A convite do Estado, participaram da American National Exhibition realizada no Sokolniki Park, em Moscou. A exposição apresentou um conjunto de aparatos tecnológicos e invenções industriais atrelados a costumes típicos da cultura norte-americana, buscando transmitir uma ideia positiva dos Estados Unidos. Foram apresentados automóveis, barcos, roupas e equipamentos para esporte, entre outros itens, e encomendou-se aos Eames o filme de apresentação da mostra. O resultado, intitulado Glimpses of the USA (1959), reuniu uma série de mais de 2.200 imagens, entre stills e imagens em movimento, desenhadas e elencadas para explicitar a amplitude e diversidade da vida dos norte-americanos. As imagens combinadas ocuparam sete telas com projeções sincronizadas no interior de uma cúpula geodésica desenhada pelo arquiteto e designer Buckminster Fuller.

 

A exibição, que causou furor na exposição, pode ser vista como um antecedente à imagem das telas dos computadores e suas múltiplas janelas sobrepostas. O filme traz tomadas áreas de fábricas, supermercados e meios de transporte mesclados a registros do cidadão comum e a trechos do filme Quanto mais quente melhor, de Wilder, além de fotos de agências como a Magnum e revistas de circulação nacional.

 

Com Glimples of the USA o casal passou a conjugar imagens de origens técnicas distintas, numa atitude que se desdobrou anos depois em Powers of Ten. Ambos tratam da simultaneidade entre o prosaico e o conteúdo das pesquisas científicas mais avançadas, traduzindo em fluxos de imagem noções que muitas pessoas só conheciam pela ficção científica.

 

Powers of Ten tornou-se seguramente o exemplo mais popular e minucioso da arquitetura de filmes realizada pelo Eames Office. Sua primeira versão, filmada na Flórida em 1968, continha ainda poucas imagens, todas em preto e branco. A versão de 1977, muito mais elaborada, levou um ano para ser concluída, tendo como única sequência filmada in loco a cena do casal no piquenique. Com dezenas de imagens entre fotografias aéreas e desenhos, um movimento de zoom transporta o espectador aos limites das escalas opostas do macro e do micro. Todo o conhecimento acumulado e em processo em campos tão diferentes como a astrofísica, a biologia e a física das partículas é trazido à tona por um recurso cinematográfico absolutamente simples: zoom out e zoom in arquitetam uma viagem através da relatividade das escalas e demonstram que o olhar projetual do casal se reflete quase que matematicamente dos encaixes de suas poltronas às transições de seus planos cinematográficos.