Luiz Braga: Máscara, espelho e escudo

De 13 de agosto a 12 de dezembro de 2021. 

De terça a domingo, das 11h às 20h. Entrada franca.

Conheça os protocolos de segurança clicando AQUI


Luiz Braga: Máscara, espelho e escudo


Com curadoria de Paulo Miyada e Priscyla Gomes, a exposição reúne pela primeira vez um conjunto de retratos em cores feitos por Luiz Braga nas últimas quatro décadas.  É por intermédio da ideia do retrato que as trajetórias de Pierre Verger e Luiz Braga, fotógrafos de proveniências e gerações distintas, se encontram agora nos espaços do Instituto Tomie Ohtake. 


Luiz Braga

Vendedor de pamonha, 1986

Pigmento sobre papel fotográfico de algodão

70x105 cm

Cortesia Galeria Leme



Tratam-se de figuras célebres em captar delicada e sensivelmente feições, espíritos e ânimos, colaborando expressivamente para a consolidação de uma fotografia brasileira atenta à cultura popular e às diferentes centralidades de um país de imensa escala territorial.


Nascido em Belém do Pará, Braga seguiu vivendo e trabalhando onde cresceu. Suas incursões vão da cercania de seus trajetos cotidianos, adentrando casarios ribeirinhos pouco visitados pela classe média paraense, até a ilha de Marajó, que fica a 90 km da capital. Como os curadores apontam, foi nesta periferia belenense que Braga cria uma forma própria de colorir, distinta do restante de cidade, e dessa percepção também se sobressaíram as nuances de uma sabedoria e estética popular muitas vezes negligenciadas. Essa percepção foi motora de sua escolha, na década de 1980, por fotografar em cores utilizando filmes Kodachrome, o que implicava mandar os negativos para o exterior e aguardar 3 meses até conhecer o resultado de cada clique.


Luiz Braga

Mulher no bar rosa, Belém, 1990

Pigmento sobre papel fotográfico de algodão

100x150 cm

Coleção particular


Luiz Braga

Barqueiro em Manaus, 1992

Pigmento sobre papel fotográfico de algodão

70x105 cm

Cortesia Galeria Leme


Segundo Miyada e Gomes, a identidade que tornou Luiz Braga amplamente reconhecido dentro e fora do Brasil foi a de cronista das cores e dos signos cotidianos do Pará, com sua singular imbricação da inventividade popular com a densidade atmosférica amazônica. Além disso, é possível ver outros desdobramentos.

Em primeiro lugar, prosseguem os curadores, nota-se como a adoção da cor fez com que seus retratos mantivessem um diálogo constante com a história da pintura. Isso se anuncia pela relação cromática entre personagens e ambientes e se aprofunda com a tensão constante entre o que entra e não entra em foco, o que ocupa o centro e as bordas dos enquadramentos e, especialmente, entre as linhas de força que ligam o olhar dos retratados e o ponto de vista do fotógrafo.

Em segundo lugar, a dupla destaca que é possível perceber como a constância no envolvimento de Luiz Braga com certos territórios fez com que ele alcançasse cumplicidade com as retratadas e retratados, de quem costuma escutar muitas histórias e com quem constantemente volta a se encontrar outras tantas vezes ao longo dos anos. “Tal cumplicidade atua nas dinâmicas que tornam os retratos possíveis, nem sempre explícitas ao observador das imagens”. A fotografia, escreveu Luiz Braga, é máscara, espelho e escudo. É uma mediação, uma zona de contato em que aquele que registra e seu retratado estabelecem um diálogo complexo.


Luiz Braga

Perfil de senhora no círio, 1991

Pigmento sobre papel fotográfico de algodão

40x60 cm

Cortesia Galeria Leme


Luiz Braga

Raylana, 2013

Pigmento sobre papel fotográfico de algodão

70x105 cm

Cortesia Galeria Leme


Para dos curadores, refletir sobre a complexidade desse diálogo torna-se especialmente instigante na elaboração imagética dos retratados eleitos por Braga. “São traços locais de uma existência popular em que diferentes etnias, costumes, ritos e contextos sociais se entrelaçam numa região que teve sua centralidade muitas vezes negligenciada. Num país de desenvolvimento desigual e combinado, a Amazônia é síntese prolífica da vivacidade de indivíduos, seus saberes e hábitos, frente ao escasso acesso a infraestruturas básicas e a políticas comprometidas pela predação do seu entorno. Os exemplos são vastos: as queimadas desertificantes, o contrabando madeireiro, o garimpo venenoso, o manda-matar-e-deixa-morrer, o genocídio dos povos indígenas... que impactam a vida das populações ribeirinhas interpeladas há décadas por um discurso de progresso cujas benesses nunca as alcançam senão como miragem”, completam.