Midiateca
- pt
- en
Busca
Digite aqui o que procura...
Sem resultados para sua busca
YOKO ONO – O CÉU AINDA É AZUL, VOCÊ SABE…
MATERIAL EDUCATIVO
Essa publicação educativa agrega experiências e significados a partir da exploração por parte de professores, educadores
e alunos do trabalho de Yoko Ono
1 de abril de 2017
publicaçãoEssa publicação educativa agrega experiências e significados a partir da exploração por parte de professores, educadores
e alunos do trabalho de Yoko Ono
“É o que tem para hoje”: se virar para criar – O que você aprende quando improvisa?
TOMIE EDUCAÇÃO #3
30 de abril de 2026Da adversidade vivemos!
Hélio Oiticica
Momento certo, participantes alinhados, materiais adequados, espaço acessível – com que frequência você descreveria o transcorrer de suas atividades pessoais ou profissionais dessa forma? Vivemos nos adaptando material e subjetivamente às condições apresentadas, dificilmente ideais. Para lidar com isso, que tipo de criatividade entra em cena?
A necessidade de criar para se adaptar a uma situação nova, desafiadora ou precária pode ser o reflexo de faltas. Existem contextos de fragilidade social em que não há escolha a não ser seguir, mobilizando o que se tem ao alcance não como projeto de desenvolvimento humano, mas como questão de sobrevivência. Porém é inegável que, nessas circunstâncias, desenvolve-se um saber a partir da persistência; e quando esse saber é compartilhado e se torna um modo de operar coletivo, transforma-se em cultura.
Uma manifestação disso é a chamada gambiarra. Frequentemente vista de maneira pejorativa, essa forma de pensar-fazer, tão comum no contexto brasileiro, já inspirou projetos artísticos diversos. Um deles, a série fotográfica Gambiarras (2000–2014), de Cao Guimarães, registra improvisos do dia a dia que vão desde arames que viraram hastes de óculos a clipes metálicos no lugar de fechos. Esses desvios representam a negação de um caminho único para a resolução de problemas e, inclusive, superam o que o próprio design desses objetos previu para eles. Nesses casos, uma lógica de uso que opõe o certo ao errado nem mesmo faz sentido – alcançando-se o resultado desejado, eis o valor da solução inventada.
O tópico exige atenção, pois não basta ser inventivo para superar estruturas históricas de desigualdade. Ainda assim, ao compensar as faltas, a criatividade popular muitas vezes denuncia a precariedade e, ao mesmo tempo, anuncia uma sensibilidade estética, muitas vezes adornada de narrativas. Para investigá-las, o artista e educador Mauricio Igor idealizou o projeto Ventos do Norte, por meio do qual distribuiu lambes pelas ruas de Belém, no Pará, que anunciavam a compra de “ventiladores com gambiarras e suas histórias”. Tampas de garrafas substituindo botões, fitas isolantes prendendo hélices, pedaços de pano fazendo isolamento acústico e outras robóticas caseiras permitiram que os ventiladores remendados pelos participantes do projeto resistissem à obsolescência – de forma que alguns até ganharam apelidos e passaram a fazer parte da família.
A linguagem da gambiarra já nomeou uma exposição que reuniu artistas brasileiros na Gasworks Gallery, em Londres, no ano de 2004. Em Gambiarra – New Art from Brazil, trabalhos feitos com materiais simples, além do registro de performances que driblaram burocracias, marcaram o improviso como estratégia consciente para revelar contradições do sistema de arte e da realidade brasileira. Na mostra, a obra Cabeça acústica (1995), do artista Marepe, sugeria uma finalidade poética para objetos comuns, como bacias de alumínio, dobradiças e cabos de borracha, ao agrupá-los em uma espécie de capacete.
Se nas artes o improviso pode ser linguagem ou tema, na produção cultural ele já foi encarado como metodologia de trabalho. No bairro de Perus, na capital paulista, desde 2005 a Comunidade Cultural Quilombaque articula esse saber. Em paralelo à luta pelo reconhecimento da Fábrica de Cimento Portland Perus e da memória de seus trabalhadores como patrimônio, jovens moradores se uniram para mapear espaços e movimentos culturais, como a Casa do Hip Hop, a Biblioteca Padre José de Anchieta, as Aldeias Guarani e o Cemitério Dom Bosco, a fim de criar o Museu Tekoa Jopo’í – uma proposta que reconhece Perus como território de interesse da cultura e da paisagem.
Sem esperar por patrocínios ou por intervenções governamentais, a Quilombaque já realizou shows, parcerias com universidades, palestras e trilhas de turismo comunitário, baseando-se em um termo largamente utilizado por José Soró, um dos principais articuladores do movimento: a “sevirologia”. A ideia de “se virar” associada ao sufixo “logia”, que remete a estudo ou ciência, propõe uma valorização dessa forma de atuar, isto é, defende que há um saber desenvolvido em torno de fazer acontecer com as condições disponíveis. Como diz Cleiton Ferreira, outro agente cultural da Quilombaque: “Se você tem, você faz, se você não tem, você se vira e faz do mesmo jeito”.
A sevirologia e um olhar generoso para a gambiarra podem nos ensinar a reivindicar a criatividade como lugar de liberdade, e não de reforço da precariedade. Aqui, “se virar” é uma linguagem de resistência, que estimula que haja menos planejamento e mais fazer, não porque planejar seja ruim e sim porque a ideia de que só se age quando as circunstâncias são perfeitas é um engessamento. No contexto da educação, lidar com essas questões faz parte do dia a dia: entre o programa e o encontro real com os públicos, a mediação que funciona raramente é a que saiu de acordo com o roteiro e geralmente é a que soube dobrar, confiar no processo e reconhecer no improviso uma forma legítima de conhecimento – como um corpo que é solto o suficiente para se adaptar, mas tem tônus para retomar sua intenção.
*
Quando você muda o roteiro e responde ao inesperado, como registra o que aprende com isso?
Como valorizar a capacidade de “se virar” sem transferir para os indivíduos a responsabilidade por condições estruturais inadequadas?
Você já adotou uma solução improvisada que saiu melhor do que o plano original?
*
Confira registros das obras e artistas citados neste texto: a série Gambiarras, de Cao Guimarães; o projeto Ventos do Norte, de Mauricio Igor; e o trabalho Cabeça acústica, de Marepe.
Entre 2023 e 2024, a Comunidade Cultural Quilombaque participou da exposição Ensaios para o Museu das Origens no Instituto Tomie Ohtake. Saiba mais sobre a mostra aqui.
O artista Allan Weber reaproveita tendas de bailes funk e peças automotivas em diversos trabalhos artísticos, como na série Lona, dando-lhes outros significados no espaço expositivo. Na última edição da newsletter Tomie Educação, o texto Allan Weber: deslocar o corpo e o olhar se dedicou a sua trajetória.